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A importância do politicamente correto

By sufragista - fevereiro 25, 2018


(ao minuto 13:20)

Transcrição (livre).

Bruno: ... Nos dias de hoje, tem que se escolher muito bem, supostamente (não é que se deva)..., mas vivem-se tempos em que nos obrigam a escolher muito bem aquilo que nós estamos a dizer. A maneira como dizemos, a ironia com que dizemos (retirar as coisas do contexto)... que é a época do politicamente correto. Qualquer coisa que se diga é potencialmente ofensiva para qualquer pessoa.

Miguel: O politicamente correto é a antiga boa educação.

Bruno: Sim. O politicamente correto é um bom fundamento.

Miguel: É uma coisa boa.

Bruno: É uma coisa boa, sim... mas na sua ideia-base. O politicamente correto tem como, chamemos-lhe princípio, defender aqueles que têm menos possibilidade de se defender.

Miguel: Não. Eu acho o politicamente correto sempre um avanço, mas também um retrocesso à antiga boa educação. Por exemplo, esse cuidado que nós temos de ter agora, passa muito por perguntar: "Como é que quer que eu o trate? ... Quer que o trate por Bruno?" No mínimo. Isso é uma coisa antiquíssima. O que está errado hoje é quererem fingir que é uma coisa nova. Uma pessoa escolher o pronome, como é que o quer apresentar... a questão do género.

Bruno: A questão do género... é mais por aí. Não é tanto "como é que quer ser tratado?"... É muito fácil uma pessoa ser catalogada como racista ou homofóbica se for a escolha de palavras errada, hoje em dia.

Miguel: Mas lá está, já ser corrido já é uma grande generosidade. Corrigirem-nos já é muito generoso, porque têm mais que fazer...

Bruno: Pois, eu não sei se, nos tempos que correm, se é generosidade ou se é mesmo uma procura de uma ocupação...

Miguel: Vamos lá ver, é assim: nós temos a obrigação de educarmo-nos a nós próprios sobre as coisas e sobre as minorias, etc. Tenho que pensar sobre saber o que é ser branco, portanto, sou previligiado em ser branco. Ando num carro e ninguém pensa que eu o roubei. Percebes? É mais fácil arranjar trabalho, é mais fácil nos restaurantes, é mais fácil tudo. Esse é o trabalho do dito politicamente correto, eu dizer: é branco, priviligiado, burguês... pá... só me sairam todos trunfos, a minha vida é ultra-facilitada. Não sou deficiente, etc. Esse privilégio... Isso é uma coisa muito antiga, antigamente chamava-se "noblesse oblige". É uma questão de injustiça. As pessoas arranjam muito nomes, mas é uma questão de injustiça. É injusto, que uma pessoa sendo negra, seja mais difícil arranjar um trabalho.

Bruno: Claro. Mas nisso estamos inteiramente de acordo.

Miguel: Eu lembro também de levar muita pancada quando dizia "os portugueses" em vez de "os portugueses e portuguesas"... 

Bruno: E qual é a tua posição em relação a isso? Achas que ainda bem que se chamou a atenção?

Miguel: Agora, depois de muito pensar, acho que... compreendo que seja... castrante. Já, já... Mudei de opinião.

Bruno: E coisas como ter de haver o "Cartão do Cidadão... e da Cidadã"?

Miguel: Acho que tudo o que seja o mais neutro do género, melhor. 

Bruno: A minha posição em relação a esse tipo de coisas é que acho que se foca nas coisas que podem chamar a atenção mas não necessariamente nas coisas que são fundamentais. Acho que é isso.

Miguel: Sim, mas chamam a atenção para o facto dos homens terem mais poder do que as mulheres. Há um desfoque.

Bruno: Sim, claro, mas isso aí é um tema legítimo, claro.

Miguel: Nós beneficiamos disso e portanto, usar a língua como sendo masculina para neutralizar é mau. Eu percebo que se diga: portuguesas

Bruno: Claro, sim, também.

Miguel: Uma coisa por exemplo, desgendrar a língua portuguesa: por exemplo, "arquiteto"... faltava sempre um neutro como noutras línguas, sendo "arquiteto", "arquiteta" depois um neutro que fosse... "arquiteti"... uma coisa assim. Sabes, uma coisa neutra.

Bruno: Podemos começar hoje... "arquiteti".

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