A espera

By sufragista - julho 22, 2018


I

Julho desenrola-se e não tarda nada chega Agosto. O medo aproxima-se. Solidão estival.

É um sentimento que me lembra a infância, e a adolescência, quando a solidão me pareceu cada vez mais óbvia, mais premente. Invejar os amigos dos outros, os que tinham grupos, parelhas, conjuntos nos quais encaixar. Mas, no fundo, é um sentimento que vem da infância sozinha: filha única, primos mais velhos, sempre a inventar amigos invisíveis para fazer a imaginação brotar.

Não estar sozinha não se ensina, nem se aprende, arranja-se. Encontram-se, ou não, as pessoas que querem estar connosco muitas vezes, e outras, todos os dias, para “dividir” a vida. Mas estar sozinha não é uma escolha, tal como nem sempre estar acompanhado é (apenas) uma escolha. Na maioria das vezes é um constrangimento.

Ninguém quer estar sozinha.




II

Em adultos, o medo de “acabar” sozinho é uma ameaça que combatemos com tudo o “resto”. Empatamos o tempo, até não estarmos nunca desacompanhados. Se nos mostramos sozinhos, sem pudor, os amigos estranham-nos. A consciência da idade adulta é só uma armadilha. Não estamos mais sérios, só mais espertos e desconfiados da honestidade.

Depois da “juventude” é mais difícil reclamar os amigos, juntá-los, chamá-los para nós. Escapam-se cheios de desculpas. E embora sem “culpa”, ficamos tristes como se não fôssemos amigos suficientes para eles. Nunca quis reclamar os amigos, mas fui sempre obrigada a isso: eles não vinham pelo próprio pé.

Quando os reclamava, era quase como se reclamasse “deles”, e ficavam sentidos, cheios de importância. Esses amigos eram muito mais tarde reciclados, postos de lado. Os amigos também nos querem para eles de algumas maneiras, só deles, e dão-nos palavras ácidas para nos terem pela mão. Os amantes também, descobri mais tarde, mas é duma acidez que corrói por dentro, para nos deixar ferrugentos de saber amar. Acumulei ferrugem por tanto tempo que deixei de saber caminhar pelo próprio pé. Já ninguém me tinha pela mão, e foi de caminhar sozinha nesse tempo deserto. No verão custava sempre mais. Era preciso disfarçar que sabia estar sozinha depois de tanto tempo a caminhar de andarilho.


III

No verão fica o vazio do ano de trabalho, ficam as férias obrigatórias dos adultos e das crianças, fica a cidade vazia. A respirar lento. Um compasso de espera. A promessa da descompressão sob o sol. Tirar férias: viajar com os amigos, os amantes, a família, os animais de estimação. Construir tempo de ócio, fazer praia. Derreter na areia. Beber com palhinha. Voltar bronzeada.

Como arranjar desculpa para não fazer nada disto, como recusar isto por estar sozinha? Como estar sozinha, não por escolha, e querer ter verão e amigos e amantes e família mas não saber fazê-los, como as férias ou a praia ou a solidão? Como fazer de conta que queremos o mesmo quando não queremos o mesmo? Queremos mesmo o mesmo que os amigos dos outros que não são os nossos? Ou apenas o sol, sob todos, mais para uns que para outros, que “tiram” férias, “fazem” amigos e “constroem” família? De que lado do sol está a minha verdade?


IV

É preciso esperar o outono. Com ele, a revelação, a mudança. Sempre. Nunca tive o coração parado em pleno outono. Havia já revoluções nas minhas mãos. Entre o calor e o frio opera-se esse milagre da mudança. O outono liberta o que o verão amarra. Nunca fui realmente infeliz em outubro. Já sou outra quando as folhas param de cair. Volto atrás e sigo para o futuro, tudo numa estação. É como estar de volta ao que sempre fui.

Talvez os amigos voltem. Os que interessam. Talvez os amantes se reinventem, talvez a família mude de tom. Há futuros no outono que não se imaginam no verão, está tudo por adivinhar. Talvez seja só o acumular da mudança que a pausa estival provoca — talvez no verão se opere realmente o passo decisivo para a mudança. A pausa: esse contra-tempo. Poder ser só inconsequente. O recreio dos adultos: esquecer o trabalho, pausar a produção, ser “desprodutivo”. Deitar tarde, acordar ainda mais. Almoçar ao lanche, jantar de dia, ver o mar a desoras. Caminhar leve, lentamente. Preguiçar os dias. Não contar as horas. Respirar sem saber porquê.

Talvez só com esta rebeldia veraneante seja possível produzir a transformação do outono, e preparar o conforto do inverno, a reclusão do frio. Abrandar para recomeçar a roda-viva, desacelerar para encontrar o fio da meada, o “resto do ano”, o que sobra de esperar da vida e dos outros. Nunca fui tão solitária como em agosto e nunca mais feliz que em novembro, como nunca tão taciturna como em fevereiro e tão mais esperançosa em maio. Uma roda-viva, os meses, uma natureza-morta: quadro do tempo.

Nunca somos bastantes para nós mesmos, nunca somos suficientes.
Se calhar preciso de férias.

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