Deixei de considerar qualquer discurso que incluam as expressões "ditadura do politicamente correto", "ideologia de género", "lobby gay" e demais alarvidades semelhantes. Só a menção de politicamente correto é suficiente para me deixar de pé atrás, porque parece um disclaimer automático, parecido com aquela atitude de ressalvar que não somos racistas/machistas/xenófobos, e depois vem aquele “mas". Volto de novo ao argumento do MEC naquele momento iluminado de TV pública: “(…) nós temos a obrigação de educarmo-nos a nós próprios sobre as coisas e sobre as minorias, etc. Tenho que pensar sobre saber o que é ser branco, portanto, sou previligiado em ser branco. Ando num carro e ninguém pensa que eu o roubei. Percebes? É mais fácil arranjar trabalho, é mais fácil nos restaurantes, é mais fácil tudo. Esse é o trabalho do dito politicamente correto, eu dizer: é branco, priviligiado, burguês... pá... só me sairam todos trunfos, a minha vida é ultra-facilitada.”
Não consigo explicar ainda a sensação de descobrir finalmente, com um atraso de quase dois anos, o diagnóstico daquilo por que passei durante anos. E é quase como uma doença, cheia de sintomas, sinais de alerta e consequências. Só que não se vê.
Falarmos publicamente — também graças à cumplicidade das redes sociais — sobre doenças mentais e comportamentos psicológicos e psíquicos, tem sido uma descoberta do melhor que pode unir as pessoas. Por mais invasor que estes discursos nos pareçam, esta discussão pode ser decisiva para quem está a passar por coisas que não consegue explicar, porque não há palavras para elas. Falar de saúde mental é também inventar um novo léxico, para podermos nomear o impossível. Sem nomeações, as confusões e os maus diagnósticos são imensos. Sem sabermos como falar do que sentimos, optámos por não falar porque o estigma está lá primeiro.
Há cinco anos um simples cartoon sobre o Gaslighting tinha-me provavelmente salvo a pouca sanidade mental que me restava. E provavelmente, teria-me poupado aos anos que se seguiram. É como ler a bula de um medicamento que descreve exatamente todos os nossos sintomas: é a panaceia certa. É exatamente o que sinto, como se me visse ao espelho, um em que posso confiar.
Ainda hoje, muitas vezes, dou por mim a questionar o meu papel de vítima. E sei que será sempre assim. Ninguém quer ser vítima a vida toda. A importância de saber que fui vítima é inigualável, e só preciso ler de algum artigo sobre Gaslighting para voltar a saber isso. As vítimas, por definição, não têm culpas, mas passam uma vida inteira com a culpa por companheira. Por definição, alguém torna-se vítima no exato momento em que lhe inculcam a culpa. Isto pode acontecer na infância ou na adolescência e fica em nós para sempre.
Poder agora dar um nome à culpa, e não me refugiar nas teorias neo-freudianas do século passado, ou na ideia de que estamos todxs a sentir demais (há disso?), é apenas um passo na direcção certa.
Eu, que passei anos com tantas reticências em relação a partidos e com problemas em assumir a militância de algum, desde que chegou o Livre, em 2014, senti uma verdadeira lufada de ar fresco no panorama da política nacional.




