Péssima

By sufragista - dezembro 29, 2019


Disseram-me recentemente que sou uma pessoa pessimista. Pus-me a pensar muito no assunto porque sempre tive a ideia, talvez confortável, de que no fundo era uma optimista com traços de ingenuidade. A ingenuidade continua aqui, mas o optimismo que resistia em mim pereceu nos últimos meses. Talvez tenha confundido esperança com optimismo, acreditar na resistência não fará de mim exatamente uma optimista. Far-me-à somente não desistir. Quando começamos a ver a vida com menos cores, não querer desistir é essencial, haja algo em que acreditamos. 

Revi a minha postura perante tudo o que leio, vejo, oiço, escrevo, converso — e não era uma visão positiva: era quase sempre uma conclusão com medo e incerteza. Por vezes não distingo entre a minha personalidade e a dos tempos que vivemos — não sei se foi o mundo que me retirou o optimismo ou se na verdade nunca o tive, ou se o matei naquele limbo agreste quando a infância se torna adolescência, ou se foi no limbo seguinte, quando a adolescência se extingue e nos percebemos adultos. A vida como uma série insuperável de traumas, de passagens para o outro lado do espelho, em contínuo.

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