Do monstro no palácio

By sufragista - fevereiro 12, 2020



Há umas semanas participei de um pequeno debate onde a opinião de algumas pessoas sobre pronunciarem-se ou não sobre as coisas que dizia AV no Facebook, essencialmente sobre a polémica do “volta para a tua terra”, era de que se devia evitar partilhar notícias sobre a polémica.

Ora, este argumento — que eu já via repetido por muitas outras pessoas que subscrevem ideias de esquerda — é de que ao partilhar estas notícias que davam eco à sua figura, ao seu partido e ao seu discurso racista (e não xenófobo, como se insiste em classificar), estava-se a dar-lhes mais força e mais visibilidade. Portanto, ignorando estes conteúdos “virais”, o “ruído” sobre a extrema-direita direita com representação parlamentar seria menor, e deduzo, essa seria uma forma de não “pactuar” com o seu crescimento e a sua influência nos espaços noticiosos e no debate público.

Ora, o debate público não é “uma página numa rede social”, nem tão pouco o que se discute numa rede social, nem em duas, nem em várias páginas de vários jornais. O debate público deverá ser mais que todas as plataformas em que recebemos e trocamos informações e ideias. Ao reduzir esta questão a uma ideia de partilhas de notícias estamos desde logo a limitar o próprio debate ao Facebook, quando já se sabe que não há qualquer interesse em criar mecanismos que nos protejam das notícias falsas e dos discursos de ódio.

Na verdade, esta postura de intuir que é melhor estar calado para não acordar o monstro é no mínimo desinformada e no máximo ingénua. O monstro já está há muito tempo acordado, multiplicado, entre nós, e com assento parlamentar. O monstro está naquela senhora de meia-idade que ouvi confessar, numa das primeiras (recentes) manifestações feministas na cidade do Porto, há cerca de dois anos, que as decisões machistas de juizes (como Neto de Moura) eram uma vergonha, mas que o politicamente correto não tinha jeito nenhum. O monstro vive em cada decisão pública de menorizar a presença de neo-nazis no espaço e no debate público. O monstro alimenta-se nos restaurantes que servem francesinhas portuenses “decoradas” com cruzes suásticas (como no jantar desse partido de extrema-direita que aconteceu no Mercado Ferreira Borges que pertence ao Hard Club), como ouvi aqui.

Estarmos agora calados é o mesmo que fazer que não vemos o que está à nossa frente. É dizer que AV não é realmente um racista, mas apenas um oportunista. Que nada disto é a “real thing”, é só uma cópia má. Toda esta negação é só um indício de que já estamos na boca desse monstro, que não vai parar até nos deglutir.

A única forma de alertar para os monstros é precisamente não pactuar com eles de forma nenhuma, evitar dar-lhes espaço de manobra e gritar tanto quanto possível sobre as suas monstruosidades. Se nos calarmos por um momento, seremos apenas mais um naquela mesa de nazis com nostalgias fascistas.


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