No país dos cordiais

By sufragista - junho 22, 2020

Um resumo de um dos artigos mais importante que li este ano, que apenas pretende ser um isco para a leitura completa do artigo, publicado em Fevereiro deste ano, como que antecipando as polémicas que uma só estátua, no contexto atual, iriam provocar.
De facto, nem o 25 de Abril nem as independências africanas beliscaram o consenso ideológico em torno do lusotropicalismo. Apesar da descolonização política, que teve lugar no pós-25 de Abril, a psique nacional reitera repetidamente os hábitos mentais do colonizador; e assim, na consciência de muitos, Portugal ainda é império.

O questionamento crítico de que tem sido alvo, desde pelo menos os anos 1950 por parte de intelectuais africanos e desde os anos 1980 por parte de universitários portugueses, não parece, até agora, ter permeado a opinião pública. A emergência de novos atores sociais, com destaque para os sujeitos racializados, cujas intervenções na sociedade portuguesa sempre existiram mas nunca foram reconhecidas pelas instâncias legitimadoras das narrativas culturais e historiográficas, constitui um fator decisivo na quebra da hegemonia lusotropical.

As intervenções críticas que têm marcado a actualidade têm suscitado fortes reações por parte dos que assumem o papel de guardiães do velho consenso: académicos e outros intelectuais aposentados, o comentariado tradicional, grisalho e conservador — predominantemente masculino, branco, lisboeta e de uma certa classe social — que pulula um pouco por todos os jornais e televisões, interpretando a “realidade” nacional a uma só voz. A estes juntam-se também vários catedráticos, ainda no ativo, e funcionários superiores em instituições museológicas, bibliotecas e arquivos que emprestam o seu nome e título profissional ao serviço de narrativas edulcoradas e mitologizantes do passado colonial.
O que os guardiães do consenso não fazem, pelo contrário, é explicar estas opções ou sequer admitir que elas existem enquanto tais. Possivelmente, na sua imaginação, serão autores de uma história universal e eterna: válida para sempre e em todos os lugares; imune a releituras; impérvia ao debate e acima de qualquer dúvida. E é precisamente a partir deste equívoco que emana a fraude da história consensual: querer naturalizar uma só interpretação da História como a única possível ontem, hoje e amanhã. (...) No entanto, esquecem-se com isto que celebrar os “grandes feitos” de homens envolvidos no processo violento de colonização e defender a narrativa rosácea do “grande Portugal” é também uma escolha ideológica — curiosamente, a mesma escolha ideológica vigente em Portugal durante todo o regime salazarista. (…) Impõe-se a questão: se a resistência dos povos historicamente oprimidos foi contemporânea aos actos ditos heróicos, por que motivo é anacrónico para os guardiães do consenso questionar a resistência mas não o heroísmo?
(...) Monumentos recentes como a estátua do Padre António Vieira, inaugurada em 2017 no Largo Trindade Coelho, em Lisboa, são na realidade não mais do que materializações fantasistas da história. (...) a estátua é um fac-símile encomendado, pago e inaugurado “hoje”. É, por isso mesmo, não mais do que um arcaísmo estórico que o presente urdiu e que atabalhoadamente tentou maquilhar de jóia de família. Ela é a prova de que o tempo histórico não é algo linear, mas processual e saturado de temporalidades — e que, simultaneamente, a construção das imagens no tempo se inscreve em modos de fazer organizados por discursos de poder que constroem a visualidade, a sua reprodução na longa duração e os seus modos de apreensão.
(...) Patrocinado pela Câmara Municipal de Lisboa, a Santa Casa da Misericórdia, a Companhia de Jesus e o Patriarcado de Lisboa, numa iniciativa recente de requalificação do espaço urbano lisboeta, este insistente engano de interpretação, entretanto, germinou e teve sementes quando foi encomendado ao escultor Marco Fidalgo, que, banhando-se no néctar das fantasias coloniais que sempre deleitam a Igreja e o poder político em Portugal, conjeturou que Vieira teria chegado “ao coração do povo índio através das crianças”.

(...) Ora, se o contexto da produção das ditas gravuras foi caracterizado pela reconfiguração e expansão do poder imperial, devemos perguntar-nos que projetos imperiais se delineiam de 2017 para cá, para que a sociedade portuguesa do século XXI, laica e nominalmente pós-colonial, mereça ser catequizada em permanência no espaço público pelos fantasmas de bronze que desse império sobraram.
 (...) Esta foi a mesma câmara que em 2018 promoveu inadvertidamente o debate sobre um “museu da descoberta” destinado a celebrar o lusotropicalismo. Sabendo como sabemos que esse museu já existe a céu aberto, disseminado um pouco por toda a cidade, e concentrado na zona de Belém de forma mais acentuada, juntamente com instituições como o Arquivo Histórico Ultramarino, a Sociedade de Geografia, a Academia das Ciências, a Biblioteca da Ajuda e o MNAM, que guardam a memória do império perspectivada pelo poder. Infelizmente, para estas instituições, visitadas por inúmeros investigadores nacionais e estrangeiros, e fulcrais para um estudo mais plural e crítico do passado, não se mobilizam os fundos.
(...) Veja-se, a título de exemplo, o tratamento que receberam por parte do comentariado e do poder político o ativista Mamadou Ba em janeiro último, quando se atreveu a criticar a chocante atuação da polícia na repressão de habitantes de um bairro da periferia lisboeta ou da manifestação na Av. da Liberdade, ou, desde outubro, a deputada eleita Joacine Katar Moreira. Uma análise de incontáveis artigos de opinião publicados então e agora mostraria que os afrodescendentes em Portugal são tolerados apenas até ao momento em que se afirmam como sujeitos políticos de pleno direito e sobretudo se essa afirmação é acompanhada do exercício do direito à palavra e ao espaço público.
(...) Os comentadores de serviço podem apressar-se a dizer que tudo isto é vandalismo. Porém, trata-se daquilo a que Frédéric Gros chamou dissidência cívica (Désobéir, 2018). Aquilo que os pichadores fazem não é mais do que se reconhecerem a si mesmos como sujeitos políticos, no quadro da reinvenção de uma democracia que se quer crítica e interrogativa. A “merda” que os pichadores do Porto incordialmente demandam que seja retirada é uma estátua mas é também, e sobretudo, a materialidade dos consensos impostos no espaço público; o fim da hegemonia narrativa imposta pelos seus guardiães.
Em suma, não há anacronismo na crítica às estátuas produzidas em contexto colonial, seja esse contexto aquele que vigorou até 1974-75 ou o que, após essa data, se reproduz continuamente no discurso oficioso do Estado português. Como aliás não há anacronismo na crítica ao “museu da descoberta” ou mesmo nos pedidos de desculpas e reparações. Estas foram exigidas em vida pelas pessoas escravizadas, sendo-lhes de imediato negadas — é por isso que, quando hoje se as pedem, não há anacronismo.
 (...) E o único destino que se pode dar às estátuas enxertadas da imaginação colonial lusotropical é o regresso à fundição.

O padre António Vieira no país dos cordiais
Inês Beleza Barreiros , Patrícia Martins Marcos , Pedro Schacht Pereira e Rui Gomes Coelho
2 de Fevereiro de 2020
jornal Público

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