Os dois blogs

By sufragista - setembro 12, 2020

Os dois blogs mais belos da internet portuguesa são escritos por duas mulheres.

Não sei se se conhecem, se se lêem mutuamente, mas os seus posts têm por vezes em mim o efeito de um livro ou de um filme, quando os transforma por dentro sem vermos. São normalmente listas ou descrições de acontecimentos e são muito crus nas suas dissertações, são quase como um confessionário mas sem a culpa. Enumeram as coisas que existem na vida de uma mulher: o marido, o(s) filho(s), o(s) trabalho(s) como a parte menos brilhante da existência, uma identidade paralela, um tempo cruzado com a consciência do corpo, do desejo, das dores, das perdas e da esperança.

Se por um lado nenhuma delas tem a consciência da outra, falam-me como se viessem do mesmo sítio: o futuro? Um futuro familiar, preenchido, precário ou estrangeiro, da maternidade total, da vida a dois, da maturidade. Duas mulheres do outro lado do espelho. Eu do lado de cá, espectadora.

Há um conforto embaraçoso nestas leituras. A cadência do quotidiano delas, nas suas confissões, parecem amparar-me do meu vazio e do pavor do meu futuro ser igual ao meu presente, de que esta linha imperfeita se prolongue infinitamente vida fora, ora mais ou menos nítida, mas impávida. De nunca ter o momentum para quebrar essa cadência, alterando todos os planos e baralhando-me a mim mesma sobre o que devo ser.

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