A sensação é semelhante a voltar à casa de partida, como se "o jogo" tivésse começado aqui. Uma parte (tão importante) da minha vida emocional passou por aqui. Um espaço do qual tenho tantas memórias diferentes, e quase sempre, agridoces, como o melhor das memórias.
Há sete anos fotografei a minha cidade como nunca, calcorreei ruas, e até pedi ajuda ao meu pai para descobrir moradas. A motivação era uma dissertação de mestrado, e uma atração desmedida pelo Porto que descobri no arquivo do Espólio Fotográfico Português — coleção que até então desconhecia.
A propósito deste concerto, fiz uma visita breve a Guimarães. Nunca poderia ter sido tão breve, quase no lusco-fusco de um dia de Inverno em plena Primavera.
O "berço" de Portugal tem pormenores que não se podem captar só num fim de tarde. As lojas antigas, com mobiliário original (uma raridade no Porto, onde, nos últimos anos se destruiu as que ainda o mantinham), as montras inusitadas, e os cafés quase intocados fazem viajar no tempo.
É impossível não ficar nostálgica com esta atenção e respeito pelo detalhe, pelos materiais e pela matéria dos espaços. Numa altura em que a minha cidade parece estar a ser desmantelada, com um recurso vergonhoso (que se arrasta há anos) ao "fachadismo", ver uma cidade próxima que ainda não perdeu tudo dá-me algum alento.
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"O Facebook é agora um mercado, onde pessoas preocupadas com o seu valor de mercado usam a intimidade e o seu potencial de entretenimento para aumentar esse valor. (...) O sucesso da ideia de Mark Zuckerberg deveu-se à procura de mercadorias como a terrível sensação de abandono, a solidão incurável, o risco de se ser abandonado, ou expulso, têm no mercado global. Algumas histórias dos blogues, do Twitter ou do Facebook são, por assim dizer, o sucedâneo para algumas camadas da população das revistas de celebridades."
Zygmunt Bauman. Entrevista a Vitor Belanciano em 2013, revisitada em Janeiro 2017. Público.
Lembro-me de ler isto há quase cinco anos atrás (na antiga revista "Pública") e pensar que estavamos a construir estes artíficios há já alguns anos, mesmo antes "da" rede social existir. E quanto isso me dizia da terrível era da solidão que vivíamos (e vivemos) e que eu sentia tão presente. Nessa altura vivia em Lisboa e senti muito medo do futuro. Hoje parece incrivelmente próximo e contagiante, sendo cada vez mais difícil decidir um afastamento desta mediatização do quotidiano, ou uma aproximação ao outro que não seja mediatizada por estes artifícios. A verdade é que as relações sociais, cada vez menos veiculadas por eventos sociais, nos prendem aos artifícios da imagem digital, e da ideia de partilha do momento, do instante.
A respiração nunca mais será a mesma porque o futuro torna-se frágil, e menos atraente comparado com a vitalidade do momento presente. E no entanto, separados dos outros, só podemos viver o presente um dos outros à distância de cliques e de imagens, sublinhando a nossa profunda solidão e esse abandono (vindo da busca da liberdade pela autodeterminação). Encontrarmo-nos agora, a nós mesmos, neste presente mediatizado e frenético, é cada vez mais difícil.
"A falta de serenidade conduz a nossa civilização a uma nova barbárie. Nenhuma era valorizou mais os seres ativos, isto é, os inquietos. Uma das correções que urge, pois, fazer ao caráter da humanidade é desenvolver, e em grande medida, o seu lado contemplativo."
Friedrich Nietzsche, Humano. Demasiado Humano. Obras Escolhidas de Nietzsche. Círculo de Leitores, 1996. (citado por Byung-Chul Han, A Sociedade do Cansaço. Relógio de Água, 2014.)
No espaço de dois dias já ouvi duas pessoas a queixar-se da proposta de lei que fará com que o Alojamento Local seja sujeito à autorização dos condomínios.
Parece-me cada vez mais uma cegueira generalizada. Eu não quero viver em cidades-fantasma, em que as pessoas locais desaparecem para os subúrbios, ou até para outras cidades. Não quero também, como a maioria das pessoas não quererá, viver em prédios onde entram diariamente pessoas diferentes, o que certamente gerará um sentimento de insegurança. Também não quero deixar de ver as mesmas pessoas que vejo na minha rua, ou na frutaria, ou no autocarro. Até porque se isso acontecer na escala galopante em que acontece, em breve esses serviços vão-se converter apenas em serviços de valor mais alto, pensados apenas para o segmento do turismo.
A única forma de conter o turismo num elemento agregador e não destruidor do tecido social de uma cidade (que é também preservar aquilo que a maioria dos turistas procuram nas cidades portuguesas) será uma regulamentação atenta não só da construção de hotéis mas também da regulação do alojamento local, um negócio que se tornará uma selva, não tarda muito.
Há muitos mais argumentos para esta questão, mas basta pensar a próxima geração, a querer viver ou estudar nas cidades, terá que alugar apartamentos a preço muito inflacionados pela desregulação absoluta do turismo local. O que fará com que tanto os estudantes como as universidades progressivamente abandonem os centros urbanos (o que aliás, já acontece). Sem jovens no centro e sem famílias (que não podem comportar o custo de vida na cidade), restam-nos apenas os serviços, o entretenimento e os turistas. Ninguém vai querer visitar uma cidade feita de e para turistas, e aí, rebentará finalmente a bolha do El Dourado do turismo de massas. Esperemos que já não seja muito tarde para a podermos reclamar a cidade de volta.
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Uma imagem para ilustrar tão bem estas ideias (já que não tenho fotografias que mostrem a absoluta turistificação do centro do Porto, porque me concentro a registar aquilo que lhe escapa).
E dois artigos essenciais:
A única forma de conter o turismo num elemento agregador e não destruidor do tecido social de uma cidade (que é também preservar aquilo que a maioria dos turistas procuram nas cidades portuguesas) será uma regulamentação atenta não só da construção de hotéis mas também da regulação do alojamento local, um negócio que se tornará uma selva, não tarda muito.
Há muitos mais argumentos para esta questão, mas basta pensar a próxima geração, a querer viver ou estudar nas cidades, terá que alugar apartamentos a preço muito inflacionados pela desregulação absoluta do turismo local. O que fará com que tanto os estudantes como as universidades progressivamente abandonem os centros urbanos (o que aliás, já acontece). Sem jovens no centro e sem famílias (que não podem comportar o custo de vida na cidade), restam-nos apenas os serviços, o entretenimento e os turistas. Ninguém vai querer visitar uma cidade feita de e para turistas, e aí, rebentará finalmente a bolha do El Dourado do turismo de massas. Esperemos que já não seja muito tarde para a podermos reclamar a cidade de volta.
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Uma imagem para ilustrar tão bem estas ideias (já que não tenho fotografias que mostrem a absoluta turistificação do centro do Porto, porque me concentro a registar aquilo que lhe escapa).
E dois artigos essenciais:

"(...) É tradicional aquilo que se diz que é para os efeitos pelos quais se diz que é e porquê. É uma definição como outra qualquer. Serve ao mesmo tempo para falar das coisas e, sobretudo, a partir das coisas na demanda de outros assuntos que assim se vão insinuando. Quando alguém quer dizer a alguém que a sua condição é um pouco mais sofisticada, dir-lhe-á, por exemplo, sabes, descobri este lenço naquela loja muito antiga, muito tradicional que há naquela rua onde ninguém vai. O outro, se perceber, responder-lhe-á, sim, sim já sei, é aquela loja que compra os restos de colecção da Zara. E pronto. Diz-se também que o tradicional é autêntico. Outra vaca no milho. Autêntico é tudo o que existe porque basta isso para lhe atestar a autenticidade, seja uma falsificação de uma pintura conhecida, seja um porta-chaves com o Monstro do Lago Negro."
Álvaro Domingues
Casa Oriental: Chá, Café e Chocolate
A propósito deste desabafo — aquilo que parece ser o encortiçamento do turismo nacional, com muito paternalismo à mistura — fico desolada com o estado a que chegou uma cidade como Lisboa.
De como a descaracterização típica de uma cidade-de-ninguém (com pouco sentimento de pertença: quem é de lá não mora lá, etc.) pode fazer tanto dano à cultura — no seu sentido mais abrangente — de um país. Fica a ideia, tão falsa quanto tentadora, de enfiar várias coisas portuguesas (portuguese stuff) pela goela abaixo do turista, junto com um golinho de ginja no Rossio. É o turismo-desenrasca. Que o turismo oficial tão bem comprou, com a mesma avidez de um tasqueiro oportunista.
Este artigo, que data de há um ano — quando eu ainda morava lá — mostra como varrer portugueses de Alfama não só vai ser fácil, como já está a acontecer. A experiência deprimente de passear nas ruas semi-desertas de Alfama e ser convidada a jantar em inglês por meia-dúzia de donos de restaurante ilustra bem as coisas. O bairro não está deserto, nem está habitado, e parece que sobram os deslocados, os muito pobres e os que exploram os turistas. Os portugueses que trabalham (os poucos que ainda o fazem) vivem do outro lado do rio ou a vários quilómetros de distância do Tejo. A vida ribeirinha de Lisboa é uma tristeza: repetir o percurso Santa Apolónia-Alcântara diariamente durante muitos meses é experiência suficiente para sabê-lo.
Se por um lado existe uma sensação de vida ao raiar do sol, ao final da tarde sobram os grupos de turistas queimados que rumam ao Chiado e ao Bairro Alto para a vida noturna. Os lisboetas desapareceram todos, de carro, de barco, de metro e de autocarro para outras paragens menos barulhentas e tão ou mais descaracterizadas. Sobra uma cidade meio-fantasma, nem segura, nem insegura. Mal segura, mal amanhada.
Neste turismo, o desrespeito por cada coisa — por cada rua, e por cada paisagem, por cada pastel de nata — traduz-se num profundo desprezo pela cultura local: o conhecimento do contexto, da pertença de cada coisa. O turismo massificado faz um bolo da cultura, põe tudo na mesma panela para aceleração da experiência, e pelo caminho, destrói tudo o que há de bom nos pormenores.
Acho que nem as andorinhas se safaram…
















