O “meu” bairro a gentrificar. Apesar de só ter vivido três meses naquele canto de Lisboa, será para sempre a minha morada favorita, na capital e de todas as outras moradas mais ou menos temporárias que conheci na minha vida. Além da intensidade do que vivia naquela época, há seis anos atrás, o carisma natural daquela zona, e o seu ar abandonado na altura, sempre me atraiu. Muito próximo do centro, mas longe o suficiente para ter um ritmo próprio, muito mais lento e menos superficial que nas zonas mais populares de Lisboa. Na altura, gostava de me perder por aquelas ruas, fazer compras nas mercearias dos indianos, visitar os poucos cafés improváveis que aconteciam por ali, e comprar pão e bolos na padaria da Rua do Poço dos Negros. Estava tudo por gentrificar, aliás, tudo por ocupar. O pouco comércio tradicional que existia estava entregue a quem se quis ocupar dele ou quem desde há muito se havia ocupado dele e permanecia, e eram cada vez menos. Todos os outros sítios que haviam sido lojas estavam, ora fechados ora meio-destruídos, ora meio-abandonadas. E era uma coleção de lojas e de fachadas de meter inveja. Era só uma questão de tempo até se perceber o potencial (imobiliário também) daquela zona, que promete uma qualidade de vida improvável no centro de Lisboa.
Esta imagem, resumi-a à escuridão, para poder destacar "a República ao fundo", mas o que faz sentido é falar do porquê de me perder por aqui. Um sítio onde vivi alguns meses, que me marcaram, talvez ainda mais que os dois anos inteiros que vivi em Lisboa. Os sítios podem ser tão importantes como as pessoas, os momentos, o lugar onde estamos na vida. Às vezes sobrepõem-se à ideia de felicidade, ou de tristeza, são recetores de todas as emoções, como se tivessem emoções eles próprios.
Lisboa é uma coleção infinita de padrões, talvez tão vandalizados e ainda mais sujos que os portuenses. Há muitos padrões exclusivos. Uns são teias de aranha, outros só figuras geométricas. As cores são sempre tão mais vibrantes e desconexas.
A maravilhosa e cor-de-rosa (e tão corajosa) exposição da Mariana, a Miserável e da Maria Imaginário.
Lisboa foram dois dias. Literalmente. Cheguei numa segunda-feira de tarde com tempo suficiente para uma visita ao meu antigo espaço de trabalho, recanto de tricot e morada de umas tantas lojas engraçadas. Está diferente, mas sempre com aquele estilo trashy tão lisboeta.
Re-encontrei o meu antigo knitting spot, agora cenário de um qualquer West Side Story lisboeta.


Nessa noite fui ver o concerto que me levou a Lisboa, do qual saí com menos certezas que tinha antes. Antes disso, tempo de fotografar as traseiras do hostel: uma Lisboa tropical, com outono a fingir, no meio do caos da Avenida principal com tantos guindastes pelo céu.
Went to see Pure Comedy, found Pure Poetry.
"Mas, por muito livres que pareçam alguns dos seus movimentos, Josh Tillman nunca abre mão do controlo. É difícil decifrar, no seu rosto e sobretudo na primeira metade do concerto, o que lhe vai na alma. As diferentes máscaras que vai colocando servem-lhe invariavelmente na perfeição (...) e continuam a fazer de si uma personagem intrigante, capaz de conduzir um concerto com várias "temperaturas". Mas é quando, no regresso para encore, entabula conversa com os fãs, no fosso, ou se deixa impressionar pelo carinho do público ("this is incredible, what the hell"), que se vislumbra, reticente, o cidadão por detrás do artista, ou o rosto por trás de tanta máscara."
Achei que foi muito isto do que escreveu a Lia Pereira no Blitz, apesar de uma sensação geral de pequena desilusão com a máquina super-programada deste espetáculo. Tenho pena que haja cada vez menos espaço (físico e económico) para a música ser o que puder ser em cada lugar, com uma dose de improviso e espontaneidade que já não parece sobreviver em lugar nenhum. No final, ficou-me este sabor amargo, de imaginar a facilidade com que a música seduz para não se chegar sequer à poesia, e muito menos ao conteúdo das palavras, que para mim, sempre foram a razão de querer ouvir.
As sombras mágicas de uma rua por onde passei tantas vezes, na minha outra vida lisboeta, aquela em que a felicidade ainda aparecia pelo meio das sombras.
A casa, que de sonho se transformou em jaula, prendeu-me até há muito pouco tempo a um passado distante, que já não existe. Havíamos de poder desenhar as casas dos nossos sonhos para que eles lá coubessem, em vez de os confiarmos a qualquer sítio onde pareça caber a esperança.


















