Belize: Real love isn't ambivalent. I'd swear that's a line from my favorite best-selling paperback novel, "In Love with the Night Mysterious", except I don't think you've ever read it. Well, you ought to, instead of spending the rest of your life, trying to get through "Democracy in America." It's about this white woman whose daddy owns a plantation in the Deep South, in the years before the Civil War. And her name is Margaret, and she's in love with her daddy's number-one slave, and his name is Thaddeus. And she's married, but her white slave-owner husband has AIDS: Antebellum Insufficiently-Developed Sex-organs. And so, there's a lot of hot stuff going down, when Margaret and Thaddeus can catch a spare torrid ten under the cotton-picking moon. And then of course the Yankees come, and they set the slaves free. And the slaves string up old daddy and so on, historical fiction. Somewhere in there I recall, Margaret and Thaddeus find the time to discuss the nature of love. Her face is reflecting the flames of the burning plantation, you know the way white people do, and his black face is dark in the night and she says to him, "Thaddeus, real love isn't ever ambivalent."
A primeira metade deste livro são relatos textuais de notícias dos últimos 20 anos. São um chorrilho de factos. Violência contra as mulheres: maus-tratos, perseguições, homicídios, violações, tortura, abusos, intimidações, chantagem emocional, manipulação. É um não parar de notícias de jornal de casos de violência de homens contra mulheres, com estatísticas e estudos que comprovam as notícias. Em todo o mundo, apesar do foco nos EUA. Chegamos ao fim do capítulo sem fôlego.
Eu cheguei a meio quase sem respirar porque teve o dom de me recordar imagens que eu havia esquecido, coisas do meu subconsciente que a memória tinha reservado num canto. Coisas que não era para me lembrar, porque a vergonha de me ver de fora era tanta, que permitir que aquela humilhação fosse real era impossível, que jamais se teria passado. E, no entanto, este texto catártico de exposição da violência contra as mulheres — descrita exatamente como uma epidemia — tinha-me levado a reconhecer em mim própria esses esqueletos no armário, esse “me too”. Eu também. Eu também me senti humilhada, desprezada, desvalorizada, infantilizada, desempoderada, insultada e magoada diariamente — e tinha sido um homem a fazê-lo. Não tinha sido a minha culpa. Era personalizável. E isso é uma libertação.
Durante anos desconfiei dos mecanismos de glorificação da vítima: dos livros de auto-ajuda escritos na primeira pessoa, das “celebridades” que se davam como exemplo de superação de inúmeros problemas pessoais, porque o que se ganhava com isso era um público para um produto, havia sempre uma troca comercial implícita nessa exposição. Quando se passava nas redes sociais era ainda mais óbvio e nunca lhe reconheci valor ou propósito. A verdade é que este livro, vários artigos feministas depois e a aparição do movimento #metoo me levou a mudar a minha ideia-feita sobre o poder massivo do exemplo, da auto-exposição em torno de uma causa pública que também é privada. E a compreensão progressiva do que é isso do “lugar de fala”, de como reclamar individualmente uma voz para a juntar a tantas outras, como as matizes de cada uma, nos torna finalmente visíveis publicamente. A verdade já não é apenas detida por uma autoridade normativa — masculina, branca, heterossexual — mas pela força de uma ação individual, consertada em movimentos como o #metoo ou o #blacklivesmatter, para nomear apenas os mais mediáticos.
Este texto não quer apresentar nada novo, no fundo acho que este trabalho, de dar voz às mulheres (como das outras minorias sociais) deve ser o da repetição, da coleção, da acumulação de exemplos — diferentes entre si mas sempre coincidentes no que revelam das estruturas fundamentalmente desiguais das sociedade humanas (nomeadamente das sociedades ocidentais e ocidentalizadas). E na importância de reconhecer padrões de comportamento: uma epidemia é tão massiva que se pode tomar como a norma, mas se o resultado são milhares de mulheres mortas anualmente, então alguma coisa está profundamente errada, estamos todas/os em negação.
Se o mais difícil é ser-mos sinceras connosco mesmas, então começar por aí pode desencadear uma revolução em cadeia. É também isso que a autora revela neste livro e é a propósito desta honestidade impactante que escrevo sobre isto.
O mais importante é poder tornar visível aquilo que mentimos em sociedade: que as mulheres já são iguais e já têm direitos iguais aos dos homens, que a colonização portuguesa foi branda e os portugueses não são racistas, que os gays e as lésbicas já podem casar e por isso já existe uma igualdade de oportunidades, que as pessoas muito pobres não querem realmente ser inseridas na sociedade, etc. Admitir qualquer uma destas coisas é como uma derrota que autorizamos. Como um problema que relativizamos porque não é nosso.
Belize: I hate America, Louis. I hate this country. Nothing but a bunch of big ideas and stories and people dying, and then people like you. The white cracker who wrote the National Anthem knew what he was doing. He set the word free to a note so high nobody could reach it. That was deliberate. Nothing on Earth sounds less like freedom to me. You come with me to Room 1013 over at the hospital and I'll show you America. Terminal, crazy, and mean. I live in America, Louis. I don't have to love it. You do that. Everybody's gotta love something.
Louis: Everybody does.
“(…) O fim do império, a 25 de Abril de 1974, poderia ter sido o começo do diálogo sobre o que aconteceu desde o século XV, esse dia inicial inteiro e limpo / onde emergimos da noite. Em vez disso, os demónios mais antigos foram empurrados para o fundo antes de virem à tona.
Todos os impérios são uma história da violência, caberá a cada um atravessar a sua para ser mudado. Quando isso não acontece o filho do que foi morto falará e o filho do que matou não conseguirá entendê-lo, porque o lugar do outro está por experimentar, nunca houve transformação. Quem teme deixar de ser quem é não vai saber quem foi nem quem vai ser. De olhos e ouvidos fechados aos espíritos, continuará a cobrir-se com as mesmas palavras.”
Alexandra Lucas Coelho, Deus-dará
"Só a atenção profunda refreia a "inconstância dos olhos" e gera a concentração capaz de fazer "cruzar as mãos errantes da natureza". Sem esta concentração contemplativa, o olhar vagueia errante sem ser capaz de expressar coisa alguma. A arte é, porém, um "ato de expressão". Até Nietzsche, que substituiu o Ser pela Vontade, sabia que toda a vida humana terminaria numa hiperatividade fatídica, se fosse despojada de todo o seu lado contemplativo (...)"
Byung-Chul Han, A Sociedade do Cansaço
"A natureza tem uma lembrança instintiva. É a lembrança fundamental. Por instinto, tudo estará correcto. (…) Os poema são instintivos, eu disse. Uma natureza instintiva que quase nos redime. Às vezes, um poema acende-se como um candeeiro dentro da cabeça. Fica-se a ver muito bem o que até então nunca se vira. Pendurar um poema e atravessar com ele a noite inteira sem sequer nos darmos conta de que se fez noite."
Valter Hugo Mãe, A Desumanização
A Virginia consegue ser uma chata nas descrições e deambulações sentimentais das personagens, mas depois tem destas pérolas:
E, à medida que se afastavam dela, o fio que os ligava (tendo eles almoçado lá em casa) ia-se estirando, cada vez mais fino à medida que caminhavam por Londres; era como se os nossos amigos, depois de termos almoçado com eles, ficassem ligados ao nosso corpo por um delgado fio que (divagava ela) o som dos sinos que batiam a hora ou chamavam para a missa tornavam mais confuso, como o fio da aranha solitária se curva sob o peso das gotas de chuva, até ceder. E assim adormeceu. Richard Dalloway e Hugh Whitbread hesitavam à esquina de Conduit Street no preciso momento em que Millicent Bruton, deitada no sofá, deixava romper-se o fio e começava a ressonar.
Mrs. Dalloway (1925), Virginia Woof

Sou uma péssima blogger. Não sou exemplo para ninguém. Devia postar todas as semanas, na impossibilidade de o fazer todos os dias. Ainda por cima esqueço-me dele abandonado na blogosfera — ninguém o lê — assim perdido, acho que um dia se esfuma. Prometo neste início de Outono (as resoluções são para se tomar no início das estações) tornar-me mais fiel a este bazar e a preencher pelo menos uma vez por semana, este espaço em branco.
Também reparei que tenho sido monótona a falar quase sempre de música, ou de músicos. Prometo tornar-me mais diversa nos temas e falar de outras coisas como cinema e livros... e fotografia, e tipografia e outras grafias. Além de uma blogger vergonhosa, sou uma leitora preguiçosa (de livros, leia-se). Abandono-os se me chateiam e não falam comigo, deixo-os a meio, pego neles outra vez, volto ao início, retomo a história e chateio-me outra vez com eles. Há vários livros com os quais tenho estas relações turbulentas. Outros é amor-à-primeira vista. A Mrs. Dalloway dá comigo em doida — culpa ou não da tradução — aquela escrita que esconde realmente algo bom não bate certo durante todo o livro, e o ritmo de descrições-pensamentos-personagens não é fácil de gerir com uma leitura-a-tempos (que é a que faço): ao pequeno-almoço, no comboio, na espera da consulta, no comboio e ao pequeno-almoço (não leio à noite, atormentam-me os sonhos). Prometo também tornar-me menos conflituosa com os livros e resolver as nossas discordâncias antes de os abandonar. Por isso resolvi que desta vez, vou ser teimosa e vou ler o original. Mas era mesmo este que eu queria...
Quando era pequena sentia o pulsar do céu sobre mim: assim uma espécie de espiritualidade meteorológica. Era tanto como se o céu fosse a suspirar profundo: um, inspirar fundo, dois, o expirar da tempestade. É o coração nas mãos a querer fugir, a toda a hora, preso nos meus dedos.
E é como se finalmente compreendesse isto:
Prior: "I know, but i feel like something terrifying is on its way, you know, like a missil from outer space, and it's plummeting down towards the earth, and I'm ground zero, and... I am generally know where I am known as one cool, collected queen. And I am ruffled."
e isto:
Harper: "I'm undecided. I feel... that something's going to give. It's 1985. Fifteen years to the third millennium. (...) maybe the troubles will come, and the end will come, and the sky will collapse and there will be terrible rains and showers of poison light, or maybe my life is really fine, maybe Joe loves me and I'm only crazy thinking otherwise, or maybe not, maybe it's even worse than I know, maybe... I want to know, maybe I don't. The suspense, Mr. Lies, is killing me."
Tony Kushner, Angels in America - Part One, Millennium Approaches
Era uma vez uma menina feliz, feliz, feliz... porque a poesia quando é reconhecida é muito bom, e principalmente, quando aquela escritora que leu quando era pequenina foi uma dos que leu e premiou os poemas dela... Escrevo desde de que me lembro de mim, lembro-me de dar erros e usar muito corrector, mas desde de que comecei a escrever por criação e não por cópia começei a criar os melhores mundos de sempre e deixei um livro de poemas de menina pequena na escola primária. E nunca deixei de escrever. Quando temos a consciência que somos bons, temos que lutar pelo nosso espaço, aquele que reconhecemos que temos direito...
Quando era pequenina a mãe trouxe-me um livro da escola, porque a escritora tinha estado lá a dar autógrafos e a promover livros. Li o meu primeiro romance aos oito anos, e Melinda é o nome mais lindo do mundo e não existe personagem mais maravilhosa que a Tontinha do Mar. Foi a escritora que me ensinou a escrever como gente pequena e a pensar a escrita como gente grande. Sou maior mas ainda sou pequena e ainda tenho que crescer muito para escrever mais tarde para meninas de oito anos.
Hoje leio a filha (Catarina Fonseca) e perco-me nos livros mais recheados de coisas belas e estranhas, e mais bem alinhavados e polvilhados de tudo... Quando crescer quero escrever como a Alice e dar poemas a todos. Quero que se leia mais poesia que nunca porque temos uma língua primordialmente poética, num país também primordialmente poético, com sentimentos melancólicos.
obrigada à Alice Vieira a ao prémio (apnljfc)
obrigada ao "Flor de mel" por ser a minha semente








