Com um atraso monumental nas contas dos anos e da música que vou ouvindo, recupero aqui as coletâneas no ano ido de doismilequinze, que de uma forma um tanto diferente, parece-me cada vez mais análogo a este ano de doismiledezoito. Já tenho uma música predileta, a ouvir em loop, para caber nesse álbum do ano que já vai a mais de meio.
Went to see Pure Comedy, found Pure Poetry.
"Mas, por muito livres que pareçam alguns dos seus movimentos, Josh Tillman nunca abre mão do controlo. É difícil decifrar, no seu rosto e sobretudo na primeira metade do concerto, o que lhe vai na alma. As diferentes máscaras que vai colocando servem-lhe invariavelmente na perfeição (...) e continuam a fazer de si uma personagem intrigante, capaz de conduzir um concerto com várias "temperaturas". Mas é quando, no regresso para encore, entabula conversa com os fãs, no fosso, ou se deixa impressionar pelo carinho do público ("this is incredible, what the hell"), que se vislumbra, reticente, o cidadão por detrás do artista, ou o rosto por trás de tanta máscara."
Achei que foi muito isto do que escreveu a Lia Pereira no Blitz, apesar de uma sensação geral de pequena desilusão com a máquina super-programada deste espetáculo. Tenho pena que haja cada vez menos espaço (físico e económico) para a música ser o que puder ser em cada lugar, com uma dose de improviso e espontaneidade que já não parece sobreviver em lugar nenhum. No final, ficou-me este sabor amargo, de imaginar a facilidade com que a música seduz para não se chegar sequer à poesia, e muito menos ao conteúdo das palavras, que para mim, sempre foram a razão de querer ouvir.
"I I fell in love with a bad bad man
Every since I met him
I've been sad sad sad

20 anos de Kazoo, um cd que tenho desde 1997 e que me deixa feliz sempre que regresso a ele. Coincidências felizes: este verão tive uma necessidade súbita de voltar a ouvir aquela versão da I'm free, que já tinha ouvido ao vivo num espetáculo único dos Clã no TNSJ, talvez em 2008. Essa música vem sempre a saber a novidade: uma sensação de liberdade inconsequente sempre que a ouço, que só cabia no "teen spirit" do final dos anos 90, herdeiros da libertação dos anos 60.
E no final, os Clã, já sem canções do Kazoo para tocar, deram-nos duas covers de originais de 1997, uma em parceria com a banda que abriu o concerto (os estetas Best Youth) cantada a duas vozes: No surprises; e outra apresentada pela Manuela Azevedo como a canção número 2, que terminou o concerto com aquela descarga de energia elétrica dos Blur.
Tudo no Rivoli.
Mascarado de cantautor ativista dos anos 70, barbudo e despenteado, o Fachada cantou o Zeca como só ele, no meio de um centro comercial suburbano, em Agosto.
Se tivesse vivido os anos 70 quase que acreditava que teriam sido mais ou menos com aquela dose de improviso, loucura e suor.

O teu nome é uma daquelas coisas que se perde em tradução.
De sangue rosa azulado em nobreza e não só mesa, tecto, colchão.
O meu nome foi só outra coisa rabiscado na parede, a tua lousa.
De aparatoso há quem o ache piroso mas tu também és cor-de-rosa.
És rosa de cheiro? És rosa de gládio? Botão de betão?
Não, não, não, não, não...
Recordações são palavrões nortenhos, asneiras banalizadas.
O meu vernáculo é o do habitáculo das 13 assoalhadas.
Recordações da casa cor-de-rosa. Estás colmatosa, eu adormeci.
Vais devoluta e eu não estou de volta, mas ainda acordo em ti.
És rua do Torno? Rua do Casal? O refrão diz
Não, não, não, não, não...

Quando éramos adolescentes o "Jim" era o nosso herói imortal. Era também um sex symbol, poeta, cantor, performer e lenda. Líamos todos os poemas na biblioteca municipal nos livros editados pela Assírio & Alvim e ouvíamos cassetes infinitas de todos os álbuns que haviam.
Chorámos no 3 de Julho e sonhamos com Père Lachaise em verões quentes parisienses. O "Jim" e os Doors faziam-nos imaginar coisas do deserto e do Oeste, da liberdade e de ser adulto sendo jovem. The west is the best. Get here and we'll do the rest.
Ver a peça do Paulo Ribeiro foi uma viajem à adolescência, quase como uma retro-viagem, porque a minha adolescência não foi daquela época. Uma viagem sobre a viagem, de tanto tempo passado (e gerações) e das coisas tão eternas. Baseado no An American Prayer, o espectáculo é uma homenagem onde cabe humor, saudade, sexualidade e beleza. Saí tão cheia, que quase me encontrei com a rapariga de 16 anos que escrevinhava poemas no recreio da escola, a ouvir e a ler o "Jim" e a sonhar com cobras no deserto.
Fotografia: Luís Belo
Um brasileiro negro bonito diz para a colega do shopping:
"(...) eu sou mesmo assim... eu sou Gabrielo!"

com um atraso tremendo, mas sempre maravilhoso, deixo aqui o meu doismileonze. uma colecção das coisas que ouvi neste ano complexo.
na capa vêm a minha janela para o inverno mais frio e branco que já vi. uma janela nostálgica, muito cheia de saudade.
tem muito fachada e muita pj, assim como deve ser. e também lá tem o ryan goslin a fazer um falsete bonito. fui ainda a tempo de lhe pôr um pouco de frio com uma música da björk.
é assim uma caixa de bonbons, todos do ano que passou. comam-nos antes que se estraguem: aqui.

Deus, pátria e família - B Fachada
All and everyone - PJ Harvey
Suzanne & I - Anna Calvi
50's - House of Wolves
You always hurt the ones you love - Ryan Gosling
A pele que há em mim (quando o dia entardeceu) com JP Simões - Márcia
Lisbon, OH - Bon Iver
Thunderbolt - Björk
Lose it - Austra
Money - The drums
The glorious land - PJ Harvey
Mané-mané - B Fachada

Estes, dias, assaltam-me todas as minhas obsessões ao mesmo tempo. uma a seguir à outra:
- as músicas do fachada, todas, desde o primeiro albúm até ao último mais brilhante.
- os monólogos da harper (mary-louise parker) nos Anjos na América.
- a banda sonora (do filme) da Ópera do Malandro, os olhos da Claudia O'hana e a voz arrepiante da Elba Ramalho.
- a voz do Vincent Gallo a cantar "... are like summer" na Honey Bunny.
São vozes que me perseguem todos os dias, como aquele anjo que se metia nos sonhos tão reais do Prior. Para ficar a saber que é tempo de férias.
esta música é verão. há sempre verão no fachada.
e um bocado de déjà vu da nostalgia. e os anos 90, e portugal de quando eu era criança. coisas antigas e novas em mim. coisas a cheirar sempre a sol.
não acredito, ainda, como me "esqueci" desta pérola.
mais uma colaboração perfeita entre gente genial. a pj harvey e o seamus murphy.
testemunhem a Beleza aqui.
a mais bela música portuguesa do ano (para além da pérola do fachada).
uma colaboração perfeita entre gente fabulosa. um amor cantado a dois.
e comprei.
Quando o dia entardeceu
E o teu corpo tocou
Num recanto do meu
Uma dança acordou
E o sol apareceu
De gigante ficou
Num instante apagou
O sereno do céu.
E o teu corpo tocou
Num recanto do meu
Uma dança acordou
E o sol apareceu
De gigante ficou
Num instante apagou
O sereno do céu.
E a calma a aguardar lugar em mim
O desejo a contar segundo o fim.
Foi num ar que te deu
E o teu canto mudou
E o teu corpo do meu
Uma trança arrancou
O sangue arrefeceu
E o meu pé aterrou
Minha voz sussurrou
O meu sonho morreu.
O desejo a contar segundo o fim.
Foi num ar que te deu
E o teu canto mudou
E o teu corpo do meu
Uma trança arrancou
O sangue arrefeceu
E o meu pé aterrou
Minha voz sussurrou
O meu sonho morreu.
Dá-me o mar, o meu rio, minha calçada
Dá-me o quarto vazio da minha casa
Vou deixar-te no fio da tua fala
Sobre a pele que há em mim
Tu não sabes nada.
Dá-me o quarto vazio da minha casa
Vou deixar-te no fio da tua fala
Sobre a pele que há em mim
Tu não sabes nada.
Quando o amor se acabou
E o meu corpo esqueceu
O caminho onde andou
Nos recantos do teu
E o luar se apagou
E a noite emudeceu
O frio fundo do céu
Foi descendo e ficou.
Mas a mágoa não mora mais em mim
Já passou, desgastei pra lá do fim
É preciso partir, é o preço do amor
Para voltar a viver
Já nem sinto o sabor a suor e pavor
Do teu colo a ferver
Do teu sangue de flor
Já não quero saber.
Dá-me o mar, o meu rio, a minha estrada.
O meu barco vazio na madrugada
O meu barco vazio na madrugada
Vou deixar-te no frio da tua fala.
Na vertigem da voz
Na vertigem da voz
Quando enfim se cala.
september in the rain, julie london















