
O jogo amoroso português, muito complexo, muito interessante, em que os homens fazem-se de brutos… e as mulheres… é muito interessante o jogo. Muita estratégia, muito saber, muita jogada… E depois com acessos torrenciais de sinceridade, de choro, cenas com uma torrencial… que só pode ser sincera! E isso… é preciso muito saber do jogar, a manipulação... e depois “o toma lá".
A cultura portuguesa, no sentido amplo da cultura amorosa portuguesa é declaradamente sentimental. Declaradamente baseada na pena ou na desgraça e na lágrima… que não tem a conotação negativa.
E isso é uma coisa muito boa: as pessoa não têm medo de chorar, num filme ou qualquer coisa mais sentimental… Porque também… o sentimentalismo, o ódio ao sentimentalismo é uma moda, é uma coisa que data do romantismo e que foi muito agravado agora no século XX com as teorias literárias. O sentimentalismo em si o que é que tem de errado? O que é que tem de errado a manipulação de sentimentos, ou a apresentação de sentimentos de pena ou… exacerbados?
(…) A relação amorosa portuguesa é muito muito sentimental. É muito muito lamechas, ou seja, mas lamechas num sentido profissionalíssimo. Nós estamos a falar numa craveira de lamechas… ui, sexto, sétimo “dan” de lamechice. Tudo o que seja: carneiro-mal-morto, pobre-de-mim, desgraçado-estou-para-aqui-caído, não sei quê, em Portugal estamos a falar de mestres. São todos, desde os cinco anos já são mestres.
Miguel Esteves Cardoso

Os portugueses que eu conheço vivem o amor com uma intensidade, como se fosse a coisa exclusiva, dão uma importância ao amor extraordinária. É uma coisa maravilhosa. O amor, desde pequeninos… domina tudo, domina qualquer outra coisa. E por isso é que são, eu acho, relativamente felizes nos amores, porque investem tanto, tanto, tanto, estão sempre a pensar: “O que é ele fez que eu fiz mal?”, “O que é que eu faço…e telefono… e digo…que merda… porra”.
O que é bonito nos portugueses, e isto é que é mesmo bonito — eu acho que aí é diferente — os portugueses no amor são o contrário de egoístas: só pensam no outro, na pessoa amada. Não pensam nunca… aquela coisa americana e inglesa “It’s not about you”, aquela coisa egocêntrica que uma pessoa vê na literatura, n’ “O sexo e a cidade”, em que procuram alguém para satisfazer as necessidades dela, e o problema é lutar contra esse egoísmo. E em Portugal não, em Portugal (…) a pessoa que ama coloca-se numa posição de insegurança e de procurar satisfazer o outro. Um investimento gigantesco (…) uma importância gigantesca que dão à relação amorosa. É muito, muito forte.
Miguel Esteves Cardoso
Voltar a blogue, voltar ao texto. Resolvi trazer de volta as ideias sábias e curiosas do MEC, desta entrevista. As coisas que ele diz sobre os portugueses deliciam-me e dão esperança, quando esta parece escassear.

(...) Reduzir as expectativas, e ser modestos, ser locais. A nossa rua, a nossa terra, já tem tantos problemas… e resolver as coisas assim. Re-centrar o problema sobre o indivíduo, sobre o bairro, sobre a rua. Ter a rua limpa, a nossa rua limpa, a nossa entrada limpa, a nossa casa limpa, nós limpos… lá em casa, comer-se bem lá em casa (…) é fazer a coisa ao nível do tangível, e daquilo que trás prazer a cada um. E não do que deves fazer e que deves não sei quê, não sei que mais.
Miguel Esteves Cardoso
Um exemplo de outra coisa: "Eu nunca me vendi a ninguém, eu fui sempre uma voz incómoda..." Toda a gente é uma voz incómoda. "Nunca aceitei lições de moral de ninguém, fui sempre incómodo, recusei-me sempre, nunca fui comprado…" Ninguém nunca o quis comprar… toda a gente tem esse discurso, uma ideia de missão, de desgraça. Será verdadeira essa noção? Não sei. "Fui uma voz incómoda… para o regime." Pois, e o regime está bem a cagar… Voz incómoda, somos todos vozes incómodas para o regime! Mas isso é muito português...
Eu, de facto, faço isso e tu fazes isso também, escreves um artigo a dizer assim: "Epá, dei uma cacetada no Sócrates, pá… escrevi uma cacetada, olha, o gajo vai ficar… uma cacetada, nem sei… ei pá, que cacetada não sei quê, estou tão arrependido…" Isto o que é? É uma coisa de importância. Uma cacetada! Não há cacetadas nenhumas… voz incómoda… Há alguma voz em Portugal que não seja incómoda? Somos dez milhões de vozes incómodas para o regime, não há niguém que diga: "É maravilhoso este regime!"...
Miguel Esteves Cardoso

Por isso, esse lamento do Eça de Queiroz, de isto não ser francês, que somos muito brutos, que somos não sei quê, não sei que mais, somos como?
O que revela do Eça de Queiroz é o desconhecimento do Eça de Queiroz em relação aos franceses: mais brutos que os franceses? Quer dizer, mais (…) Os ingleses têm mais "yobs"… Se tu fores a ver os selvagens que é a classe operária inglesa, uma selvajaria, uma ignorância, não sabem falar sequer.
Quer dizer, é isso que nós somos?(…) quando nós dizemos "o inglês", pensamos nas séries inglesas e na família Bel Ami. Mas se tu fores ver os ingleses… são mal-educados, brutos, quer dizer, a classe não educada, muito pior… mas não tem comparação com os portugueses. Mal-criados, maus para os pais, maus para os filhos, horríveis, violentos! Quer dizer… e os franceses também, uns saloios do pior, quer dizer, como é que o Eça de Queiroz tem lata de dizer, não sei quê, "a França chega de comboio"?
Pois, chega de comboio, aquela frase famosa, o que interessa da França e a Inglaterra chega toda pelo correio, tudo o que interessa de Inglaterra vem pelo correio, e agora pelo satélite. Tudo o que interessa, o melhor dos ingleses é escrito em papel e mandado pelo correio. Essa é a verdade. Portanto, o Eça de Queiroz lamenta os comboios mas é isso.
Quer dizer, qual é a lata de dizer que os camponeses portugueses são toscos e não sei quê, matarruanos, então e os franceses? Então na altura em que ele escrevia, achas que eram todos civilizados? Ou que são hoje? Já viste os alemães? Quer dizer, os países mais ricos do que nós, vamos só ver os países mais ricos. Já viste os americanos, os red necks? Não há disso… nós não temos red necks em Portugal. Isso é de um grosseirismo, uma boçalidade… Nós todos somos japoneses ou… nós somos todos Madames Pompadours comparados com as classes operárias inglesa, ou alemã ou francesa.
Miguel Esteves Cardoso

Os intelectuais têm a mania de pensar que são de alguma forma separados do país que fazem parte. Enquanto que nós somos absolutamente intelectuais portugueses com tudo o que isso tem de triste. Nós não somos men of the world, não somos internacionais nem cosmopolitas coisa nenhuma. Nós podemos saber umas coisinhas, mas nós somos intelectuais portugueses.
É como aquela coisa do automóvel português, o português como qualifier baixa um bocadinho as pretensões: “Pois, ele é um… é um automóvel… português”. Mas há coisa em que “português” é bom, por exemplo, dizes assim: “É um prato português.” É bom, prato é porreiro. Intelectual é mau. Pronto, intelectual português, está tudo dito. Quando dizes assim: “Pronto, pois sou, olha, que se lixe.” Como é que podíamos deixar de ser?
Miguel Esteves Cardoso

Estou farto de ver na televisão ou ler esse discurso pessoal das pessoas dizerem assim: "Eu surgi numa altura em que só havia merda e não sei quê e eu introduzi a nota de irreverência…" Isso é absurdo. Eu não faço esse filme de mim próprio!
Nisso ainda não sou totalmente português.... "Pensar que estava tudo fechado, as pessoas falavam de uma maneira fechada e eu tive que a abrir aquilo… uma lufada de ar fresco…" É mentira! "As pessoas eram todas muito reverentes, não sei quê, e eu apareci e disse assim: "Olha foda-se!" Não, não foi assim.
Miguel Esteves Cardoso

Mas vê-se nos cronistas políticos, é sempre: “Aqueles sacanas estão a construir coisas e não sei quê, são corruptos e não sei quê, e eu parvalhão aqui a… sempre, eu que vejo esta miséria e mais não posso fazer se não denunciá-la.” Essas pessoas julgam que estão a denunciar quando sabem perfeitamente que todo o português está a fazer o mesmo. Ou seja, o intelectual desgostoso do povo “Este povo não sei quê, os indígenas não sei quê…”(que nós todos fazemos) não sabe que o povo também é desgostoso dele! E é desgostoso do povo inteiro! Esse desgosto é a característica dos portugueses: não é ele, sei lá, Vasco Pulido Valente, ou eu ou tu ou não sei quem, que diz: “Epá, os portugueses têm a mania não sei quê...” Não, essa é a mania dos portugueses de ser assim.
Miguel Esteves Cardoso
Todo o português está convencido que é um tanso, e que paga tudo e que os outros não pagam. Que é o único a pagar, que vivem todos dos impostos que ele paga. São tudo esquemas, não sei quê… E toda a gente tem esquemas, e toda a gente está cheia de dinheiro porque não paga dinheiro nenhum, exceto aquela pessoa única que é a pessoa que financia todo o país (…) A desconfiança faz parte. Quando tu pensas à portuguesa que é: um indivíduo, e depois o coletivo, que é os portugueses, pensas assim de uma maneira tão básica e tão… estúpida. Se pensas assim, então a desconfiança é a mesma coisa que é: “eu é que sou parvo”. É sempre: “eu é que sou parvo”, quer dizer, “eu é que sou inteligente, eu tenho boas ideias”, mas “eu é que sou parvo, eles é que sabem”. Eles é que sabem, os outros é que sabem. “Os outros é que a levam boa”. E se falares com essa pessoa e disseres assim:
- Epá, a minha vida também não é um mar de rosas, vê lá tu o que este mês paguei…
- Pois, somos nós os dois! Os outros é que...
Miguel Esteves Cardoso




