a.k.a. RBF (Resting Bitch Face), é uma técnica centenária de defesa pública das mulheres em locais públicos. Desde a adolescência a treinar todos os dias a cara-de-poucos-amigos: uma atitude essencial diária que impede o "à vontadinha" dos outros (homens ou mulheres) de realizarem comentários ou olhares em relação ao teu corpo, à tua roupa, ao teu estilo, em suma: a deixarem-te desconfortável. E é a única forma que conheço de te convenceres de que esses olhares e esses comentários (que acontecem de qualquer forma) não têm importância, e de os poderes ignorar (conscientemente).
Durante a adolescência até à idade adulta convenci-me plenamente que essa era uma característica de personalidade e não uma necessidade por ser mulher. Agora sei que ser mulher influenciou em tudo a minha personalidade. Essa "ignorância" teve a vantagem de não acarretar uma culpabilização pelo género. É uma infelicidade que as mulheres não possam ser de outra forma por terem de se ocupar do medo e do receio de andar na rua, nos transportes públicos e em qualquer espaço semi-público, não pelo "facto" de serem mulheres, mas porque isso é argumento para todo o tipo de abusos (nestes incluo homens e mulheres).
do lobo mau.
que me tivessem avisado:
olha que ele, é lobo
em pele de cordeiro.

As coisas que fazemos só para sentir borboletas no estômago,
e perseguir essa sensação a vida inteira...
Voltar ao ritual da infância dos sábados de manhã: levantar muito cedo para ver filmes antigos. Este era dos meus favoritos e deverá ter vindo também daí a paixão secreta pela vida (e pelas casas e bolos) dos suecos.
Feminism means being accepted for who you are.
I wanted to be a wife and a mother.
I never gave anything up for being a mother or a wife.
It was what I wanted.
cristinna ricci. the addams family. braided hair. spice girls. summer. turquoise blue. white platform sneakers.

Quando éramos adolescentes o "Jim" era o nosso herói imortal. Era também um sex symbol, poeta, cantor, performer e lenda. Líamos todos os poemas na biblioteca municipal nos livros editados pela Assírio & Alvim e ouvíamos cassetes infinitas de todos os álbuns que haviam.
Chorámos no 3 de Julho e sonhamos com Père Lachaise em verões quentes parisienses. O "Jim" e os Doors faziam-nos imaginar coisas do deserto e do Oeste, da liberdade e de ser adulto sendo jovem. The west is the best. Get here and we'll do the rest.
Ver a peça do Paulo Ribeiro foi uma viajem à adolescência, quase como uma retro-viagem, porque a minha adolescência não foi daquela época. Uma viagem sobre a viagem, de tanto tempo passado (e gerações) e das coisas tão eternas. Baseado no An American Prayer, o espectáculo é uma homenagem onde cabe humor, saudade, sexualidade e beleza. Saí tão cheia, que quase me encontrei com a rapariga de 16 anos que escrevinhava poemas no recreio da escola, a ouvir e a ler o "Jim" e a sonhar com cobras no deserto.
Fotografia: Luís Belo
Um brasileiro negro bonito diz para a colega do shopping:
"(...) eu sou mesmo assim... eu sou Gabrielo!"

No apeadeiro da aldeia entraram duas miúdas a bichanar algo muito secreto, falam certamente sobre o bilhete que não compraram. Quando chega o revisor perguntam se podem sair em Espinho, que um senhor lhes vai pagar o bilhete...
O revisor responde, condescendentemente, que não, e elas perguntam quanto é a multa, "Deve ser uns 120 euros…" comenta uma delas. Apresentam prontamente os bilhetes de identidade como se uma multa fosse um bilhete, todas orgulhosas porque são maiores de idade. Muito incrédulo, o revisor pergunta se têm a certeza do que estão a fazer. Riem-se ao comparar as fotografias dos BI's, enquanto o revisor lhes passa a multa. Perguntam-lhe também o que é que acontece se não a pagarem. Em voz baixa, o revisor explica lentamente as possíveis consequências. "Vai para tribunal, é?"… pergunta de forma retórica a miúda de olhos claros e cabelo escuro, uma miúda que não acredita no sistema mas apanha uma multa para fazer 15 km. Saiem todas lampeiras na estação de Espinho.
Aveiro-Porto, Junho 2011

foi descoberta uma nova diane arbus: viviane maier foi uma fotógrafa autodidacta de origem francesa, que fotografou durante muitos anos os habitantes de Chicago onde viveu até 2009, ano da sua morte. pouco antes do seu desaparecimento, john maloof adquiriu num leilão mais de 100,000 negativos que mais tarde vem a descobrir pertencerem a esta intrigante senhora. solteira, crê-se ter sido uma nanny, que nos tempos livres fotografava com a uma reflex de dupla lente (twinlense reflex).
como suspeitei, she was just my kind of girl: "She was a Socialist, a Feminist, a movie critic, and a tell-it-like-it-is type of person."
os artistas também se descobrem. há aqueles que passam uma vida inteira na penumbra da história para serem descobertos por acaso, mais tarde, por desconhecidos. o curioso deste caso é que john maloof pesquisou sobre a sua identidade dias depois dela ter morrido. uma concidência que lhe dará muito que fazer na pesquisa intensa pela sua história.
esta história, por sua vez, foi-me contada pelo c.
como suspeitei, she was just my kind of girl: "She was a Socialist, a Feminist, a movie critic, and a tell-it-like-it-is type of person."
os artistas também se descobrem. há aqueles que passam uma vida inteira na penumbra da história para serem descobertos por acaso, mais tarde, por desconhecidos. o curioso deste caso é que john maloof pesquisou sobre a sua identidade dias depois dela ter morrido. uma concidência que lhe dará muito que fazer na pesquisa intensa pela sua história.
esta história, por sua vez, foi-me contada pelo c.
A Virginia consegue ser uma chata nas descrições e deambulações sentimentais das personagens, mas depois tem destas pérolas:
E, à medida que se afastavam dela, o fio que os ligava (tendo eles almoçado lá em casa) ia-se estirando, cada vez mais fino à medida que caminhavam por Londres; era como se os nossos amigos, depois de termos almoçado com eles, ficassem ligados ao nosso corpo por um delgado fio que (divagava ela) o som dos sinos que batiam a hora ou chamavam para a missa tornavam mais confuso, como o fio da aranha solitária se curva sob o peso das gotas de chuva, até ceder. E assim adormeceu. Richard Dalloway e Hugh Whitbread hesitavam à esquina de Conduit Street no preciso momento em que Millicent Bruton, deitada no sofá, deixava romper-se o fio e começava a ressonar.
Mrs. Dalloway (1925), Virginia Woof
Frase tão pirosa, mesmo assim, dita por ela daquela forma era linda de ouvir e ver. A forma complicada como soletrava as palavras, a cara mimada e em pose, os lábios em beicinho. As coisas parolas delicadas são na mesma bonitas.
Descobri hoje que a menina que dizia "comme un miroir de moi" no filme "Les poupées russes" suicidou-se há quatro meses no seu apartamento de Paris.
Tal como no filme, uma linda modelo no seu apartamento de Paris com vista para o Sena e os "baton-rouges". Há qualquer coisa de assustador nesta descoberta. Penso nela a dizer esta frase muitas vezes, muito cliché femme-fatale. Agora podemos vê-la no cinema como Jane Birkin. How dramatic life seems some times.
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| Piero Fornasetti |
As meninas crescem sem saberem. Observam de tempos a tempos a alma cuidadosamente para não a rasgar, penteiam-na, limpam-na, sabem-na maior, mas guardam segredo para elas mesmas. Lá no fundem sentem a alma envelhecida, mais nobre.
A sua vontade Peter Pan de alma jovem em corpo-de-menina-grande rouba-lhes os dias à procura de defeitos na alma. São meticulosas na sua ignorância do crescer. Enquanto a alma envelhece, o corpo quer-se jovem, cuidadosamente jovem, sempre cuidado, sem perigo de denunciar infância ou velhice. A idade é um segredo guardado entre a alma e o coração; para os outros são o corpo, as virtudes da alma são a pele desse corpo e os defeitos só os vêem à meia-luz. Nos segredos pequenos dessa alma adolescente sentem o coração como bicho faminto, coisa pulsante por vida e de vida. Sabem-no delirante por bater mais, e acalmam-no, educando a sua pulsação. Comportar esse coração é tarefa difícil, um equilíbrio balançante entre as mãos e a cabeça.
Todas as partes do corpo são medidas, estudadas, equacionadas em surpresas e desafios matemáticos: medir o corpo até à profundidade, tirar as medidas de cór sem ver a alma ao espelho, um único milímetro faz a diferença da imagem que têm de si mesma a cada instante.
Quando o corpo desaponta, a alma corrige, fala a consciência por ela e desmente mentiras para si mesma. As meninas são poços de mentiras delas mesmas por corrigir, reescrevem-se todos os dias enquanto se banham e analisam as imperfeições da pele. Magras, esguias, tristes ou volumosas de medo, as meninas que crescem sopram suspiros para exalar os medos do corpo.
Ao crescer exalam perfumes de Primavera e não são mais corpo e alma, para serem cadernos de almas por escrever. Todos os dias uma nova, mais bela, mais penteada, limpa, perfumada e amadurecida. As meninas quando crescem não dão por isso. Lembram-se mais tarde que se viram crescer, através da película fina da alma, viam coisas por ser e outras já vividas.
Uma janela grande no peito ilumina-se pelas noites como estrela morta, e a alma descansa em paz, num corpo maior.
as meninas, filosofia feminina da infância
ou dos corpos crescentes

Menina era inocente. Vítima da sua própria incompletude, a ignorância era para ela uma virtude pois conhecer não era seu objectivo. Saber viver, para Menina, era ser com a maré do tempo, segui-la para
onde fosse e não saber de dentro de si, apenas ser para fora. Menina era para si o seu reflexo de fora de si mesma, o que via era o que os Outros viam, e só sabia de si porque os Outros sabiam.
onde fosse e não saber de dentro de si, apenas ser para fora. Menina era para si o seu reflexo de fora de si mesma, o que via era o que os Outros viam, e só sabia de si porque os Outros sabiam.
Antes de a conhecer achei que Menina não poderia viver sozinha pois acabaria por se esquecer da sua própria existência. Mas não. Menina vive muitas vezes sozinha e não se esquece de si mesma. Não pensa em si, apenas vive para fora sem dizer palavra porque tão pouco fala para dentro de si, apenas para os Outros. No entanto, por raro que pareça, Menina não se perde de si, nem desespera!, é Menina sem pensar em ser Menina e sem pensar nos Outros.
Eu quero ser como Menina.
Beatriz da Cruz Oliveira (1874-1950)
Na vida, é bom olharmos para trás. É sensato ver para a frente, com o passado presente. Também quando nos vemos ao espelho lembramos os que nos precederam. O sangue antigo nas veias e os olhos, as bocas, os narizes, a tez, o queixo e o olhar que roubamos aos antepassados. O meu alterego é a trisavó, menina burguesa, casada aos 18 anos com um burguês abastado, procriou oito filhos ao longo duma vida entre dois séculos. Tal como eu, passageira entre dois séculos, ela viveu no limbo do tempo, época da história humana que mais me fascina. A passagem dos séculos é, a medo, feita com uma aprensão curiosa dos homens daquilo que se segue, e talvez não seja diferente de viver no meio de um século. Somos duma raça especial, as geração entre-séculos. Eu e a trisavó conhecemo-nos algures no bolso do tempo, uma partilha de traços físicos e uma aspiração à grandeza, à construção, ao sonho dos que vêem nascer os séculos. Eu encarno a trisavó do longínquo fin de siècle no nosso mau século acabado de estrear.

Boneca antiga, panos retro e experiências com retalhos para fazer disciplinas...
Chamei-lhe "sacola de ir para a escola" porque me lembrou os saquinhos de retalhinhos que nas idas décadas salazaristas as crianças levavam para a escola, com a merenda da tarde e o caderno diário. Foi uma experiência bonita e lembrou-me de quando compus uma tela gigante com páginas e imagens de antigamente, num mausoléu lembrando o mundo infantil português - e política à mistura - das décadas de 30, 40, 50 e 60.










