Era uma linguagem que tínhamos aprendido os dois para nos conhecermos e para nos mudarmos no processo do amor. E rapidamente queríamos só o princípio das coisas, a memória boa e virgem dos começos. De quando éramos virgens do outro, inocentes do que nos muda por dentro.
Construíamos uma linguagem para podermos estar juntos e provar do mesmo vinho, da mesma carne, do mesmo sangue. Foi uma ligação carnal como uma refeição, foram os rituais todos, foram as palavras. As palavras eram empurradas para fora de nós sem qualquer pudor. Queríamos armas e abriamos a boca. Uma guerra fria, gélida. Passamos do fogo à água como quem se esquece.
Esquece-me. Esqueço-te. Nunca serás o que fomos.
Já nem me lembro de quem eras.
Enquanto houver bebés
no mundo
este é um local
seguro.
While there are babies in the world we are safe.
O riso das crianças
faz-nos
apreender
o impossível. E acreditar.
No mundo já não restam
os cínicos.
Os que mentem
ao contrário.
Sabemos de nos salvarmos:
resta muito
por aprender
e acreditar.
Com verdade,
nunca nos perdemos.
Só espalhamos
vida pelos cantos,
a desbaratá-la.
do lobo mau.
que me tivessem avisado:
olha que ele, é lobo
em pele de cordeiro.
Primavera adentro
pela janela aberta
Pousou em todos
os móveis,
e nas minhas
pernas
Soubesse eu
tratar-se de uma
andorinha
Havia guardado
aquele pássaro.
Até me esquecer
da casa,
da morada
do meu coração
escancarado.
A saber: a perda, tal como um homem
é uma coisa sozinha sem dono.
A tê-la, nossa, é também de sofrer sozinhos.
Nunca partilhamos as perdas, nem as partidas.
Só o fôlego desse intervalo magro
entre largar a mão da tua presença.
Saber aquilo que me mirrava no peito
mas também no centro do coração:
uma estrela tão grande que crescia sem pontas,
só brilho.
Se acordo de um sopro,
adormeces naquele
segundo emprestado.
O amor só suga
o único ar intransmissível.
Porto, junho 2015

depois
Até o meu cabelo, apostado em não crescer anos a fio
parecia brotar do cucuruto, e da nuca, louco em longuras
depois que te deixei.
E as falas claras e concisas das conversas a ficarem para trás,
só um sussurro entre-dentes no passado.
E os gestos infinitos sempre os mesmos,
a serem agora revistos pela mãos novas que fiz.
Até os olhos, depois de te deixar,
são mais fáceis agora e sem aquela tristeza
que era da indiferença.
Depois de te deixar voltei a fotografar as mesmas imagens
que conhecia antes de saber quem eras.
Será que nunca soube de ti por causa das imagens velhas?
Ficarmos ocos por dentro nunca é uma opção.
É um desvio.
É para ficarmos a saber que o amor
nos rouba (sempre) à poesia.
Porto, junho 2015
Até o meu cabelo, apostado em não crescer anos a fio
parecia brotar do cucuruto, e da nuca, louco em longuras
depois que te deixei.
E as falas claras e concisas das conversas a ficarem para trás,
só um sussurro entre-dentes no passado.
E os gestos infinitos sempre os mesmos,
a serem agora revistos pela mãos novas que fiz.
Até os olhos, depois de te deixar,
são mais fáceis agora e sem aquela tristeza
que era da indiferença.
Depois de te deixar voltei a fotografar as mesmas imagens
que conhecia antes de saber quem eras.
Será que nunca soube de ti por causa das imagens velhas?
Ficarmos ocos por dentro nunca é uma opção.
É um desvio.
É para ficarmos a saber que o amor
nos rouba (sempre) à poesia.

é a complacência que se reflecte sobre si mesma, se reactiva em autocomplacência, num amor de se amar de se amar de se amar.

eu não conhecia o nome das coisas.
eram-me sabidas mas estranhas.
eram-me sabidas mas estranhas.
no intervalo do dia era o sol que te dizia o meu nome.
a estranheza não perdurou
souberam-te todas as coisas desconhecidas,
aprenderam-me no fim da noite caladas e importantes.
gotemburgo, abril 2012

viver sem voo.
sabê-lo escondido nas vertebras de ave ou costas de anjo,
um corpo a tornar-se vento, de pé na terra ao céu é um pulo.
e querer nunca mais pousar depois de te saber nesse voo divino.
desejar-te um voo para sempre, leve como a eternidade,
as tuas penas pequenas e invisíveis nas asas estreadas.
como desenhar os dias com bico de ave.
quando se perde o pôr-do-sol
é como se nunca tivesse acabado o dia.
saber a calma dos dias
gota a gota.
tudo em ordem, as coisas
tudo em ordem, as coisas
a acontecerem no tempo
de cada uma.
sem antevisão.
o tempo no seu lugar, os sítios
sem antevisão.
o tempo no seu lugar, os sítios
com o tempo certo.
a hora que fluí nas coisas.
elas vão, adaptam-se,
sem serem pensadas.
a ordem das coisas sem direito,
apenas o instinto de olhar o
tempo e desenhá-lo no contorno do dia.







