
Bichos feios em corpo de donzela
belas adormecidas, hipócritas, futéis
e o mundo a girar devagar
tudo a regredir como pétalas a nascerem ao contrário
ou borboletas com longos anos de vida.
E o amor só para flagelar a vida má
e a tortura a sugar vida imperfeita.
Mortos por dentro, renegamos o feio
e escondemos cobardias no bolso,
como quem esconde vergonhas, coisas
que não podes mostrar aos outros.
E mentir diariamente, vestir animais
de gente decente e fingir,
como hábito feio de se fazer todos os dias.
Cuspir para o chão e berrar coisas infames
próprio dos bichos que não se mascaram
como nós. Gente decente mente.
Em corpos montruosos ou nos nossos,
vestir a sinceridade de negro e andar
de luto por ela, pelas ruas a sorrir
aos pobres e a fazer inveja aos sinceros.
Para enterrar, qual bicho morto, as
qualidades que nos assassinam
perante os outros fingindo sentir
e fraquejar sem coração de pedra.
Meninas bem comportadas não gostam,
mas apreciam e as emoções ao rubro
guardam-se junto ao peito para não dar
nas vistas.

Chove por dentro de mim
e tenho as veis alagadas,
sinto frio e água a chover por dentro.
Enquanto chove, movo-me devagar,
como nuvem, de mansinho,
para não acoradar o céu ou
despertar a tempestade humana.
Todos a chuver para dentro
como os que mordem lábios
para fora. Só a esconder e
flagelar coisas poéticas cá
dentro e fazer de conta
que sofrer faz parte do jogo
e que até é bom.
Enquanto chovo para dentro,
aguaceiros constantes no sangue
aquático dos amantes,
o amor torna-se uma pedra
dura para furar com as gotas
salgadas da alma.
E lá no fundo nascem jardins,
e brotam coisas cá dentro
que só vejo quando
a chuva pára. E o dia nasce
em mim, que o sol ilumina
e há mais segredos por
dentro que por fora, babilónias
de tesouros como nunca haviam
nascido antes. Quando o dia
pára em reflexão da água e
o sangue corre para a próxima veia,
comunhão do céu em mim:
toda eu feita de lágrimas
de anjo pagão, numa
alma civil em corpo divino.
todos os dias ela sonha às escuras
que a outra mão é tua
e que a pele de pano
tem cheiro e toque humano
e que os olhos respondem,
e que os olhos respondem,
e não são apenas os olhos dela
a olhar de fora para ela mesma,
como se a apaixonar-se por
estar apaixonada. um contra-amor
de dentro para fora, e de fora para
dentro outra vez, a ser reciclado
vezes sem conta. amassado e triste
lá dentro dela, vezes sem conta
e pensamentos com o mesmo rosto.
todos os dias ela sonha com luz
que acorda contigo num espaço
mínimo em que não cabes, só
a alimentar um sonho mau que
nunca vai acontecer e que é só
a alma egoísta a engordar com
coisas boas e sensuais. a pele
a tua, os lábios outros, a respiração
como som constante, corpos dois como
um, plena utupia lá no âmago do sentir dela.
só a enganar-se vezes sem conta e a
fingir que é pequenina e que inventa
amantes invisíveis. e é tão transparente
que até irrita. flagelar-se com poemas
chatos é melhor que rasgar a pele.
todos os dias ela sonha com luz artificial
que um dia vai viver sem artifícios,
a olhar de fora para ela mesma,
como se a apaixonar-se por
estar apaixonada. um contra-amor
de dentro para fora, e de fora para
dentro outra vez, a ser reciclado
vezes sem conta. amassado e triste
lá dentro dela, vezes sem conta
e pensamentos com o mesmo rosto.
todos os dias ela sonha com luz
que acorda contigo num espaço
mínimo em que não cabes, só
a alimentar um sonho mau que
nunca vai acontecer e que é só
a alma egoísta a engordar com
coisas boas e sensuais. a pele
a tua, os lábios outros, a respiração
como som constante, corpos dois como
um, plena utupia lá no âmago do sentir dela.
só a enganar-se vezes sem conta e a
fingir que é pequenina e que inventa
amantes invisíveis. e é tão transparente
que até irrita. flagelar-se com poemas
chatos é melhor que rasgar a pele.
todos os dias ela sonha com luz artificial
que um dia vai viver sem artifícios,
e os poros vão ser reais e tocar vai
ser simples e tão verdadeiro quanto
é aquilo que mente para dentro dela.
ser simples e tão verdadeiro quanto
é aquilo que mente para dentro dela.

TRAV'LIN' ALL ALONE
(J.C. Jonhson)
I'm so weary and all alone
Feel tired like heavy stone
Trav'lin', trav'lin' all alone
Who will see and who will care
Bout this load that I must bear
Trav'lin', trav'lin' all alone
Prayers are said to heaven above
'Bout my burdens,woes and love
Head bowed down with misery
Nothing now appeals to me
Trav'lin', trav'lin' all alone
Give me just another day
There's one thing I want to say
Friends are well when all is gold
Leave you always when you're old
Trav'lin', trav'lin' all alone
continuo a achar que nunca me senti mais vezia do que hoje. continuo numa procura incessante, que já não sei se é em mim ou fora de mim, e não consigo encontrar, ninguém, nada nem mesmo eu. como se estivesse perdida de tudo, desligada, não relacionada, quase sem identidade. por um lado, é também assim que me queria sentir, anónima, puramente anónima, mas isso é apenas utopia, já não posso esconder a cara, nem o nome. tenho que estar eu, aqui, sem penas, sem esconder... e isso custa tanto que me apetece perder de mim e dos outros outra vez. voltar ao anonimato e aos sonhos, para ninguém me reconhecer.
acho que todos nós nos encontramos nos sonhos sem sabermos conscientemente, e já nos conhecemos todos, uma vez, no espaço explorado quando não vivemos a diária alucinação, mas as outras.
não sei, nem quero saber, se isto é um bom ou mau texto. só me interessa escrevê-lo e publicá-lo, dá-lo a conhecer mesmo que ninguém o leia. ainda não arranjei explicação suficiente para isto, continuo apenas a achar "que sempre que escrevo sou só para mim".
mais uma vez não ofereço poesia, nem prosa, nem escrita, só coisas amassadas por escrever e pensar,
coisas próprias de um bazar velho, guardadas em baús.
a sufragista, outra vez,
mais vazia que nunca
acho que todos nós nos encontramos nos sonhos sem sabermos conscientemente, e já nos conhecemos todos, uma vez, no espaço explorado quando não vivemos a diária alucinação, mas as outras.
não sei, nem quero saber, se isto é um bom ou mau texto. só me interessa escrevê-lo e publicá-lo, dá-lo a conhecer mesmo que ninguém o leia. ainda não arranjei explicação suficiente para isto, continuo apenas a achar "que sempre que escrevo sou só para mim".
mais uma vez não ofereço poesia, nem prosa, nem escrita, só coisas amassadas por escrever e pensar,
coisas próprias de um bazar velho, guardadas em baús.
a sufragista, outra vez,
mais vazia que nunca
Era uma vez uma menina feliz, feliz, feliz... porque a poesia quando é reconhecida é muito bom, e principalmente, quando aquela escritora que leu quando era pequenina foi uma dos que leu e premiou os poemas dela... Escrevo desde de que me lembro de mim, lembro-me de dar erros e usar muito corrector, mas desde de que comecei a escrever por criação e não por cópia começei a criar os melhores mundos de sempre e deixei um livro de poemas de menina pequena na escola primária. E nunca deixei de escrever. Quando temos a consciência que somos bons, temos que lutar pelo nosso espaço, aquele que reconhecemos que temos direito...
Quando era pequenina a mãe trouxe-me um livro da escola, porque a escritora tinha estado lá a dar autógrafos e a promover livros. Li o meu primeiro romance aos oito anos, e Melinda é o nome mais lindo do mundo e não existe personagem mais maravilhosa que a Tontinha do Mar. Foi a escritora que me ensinou a escrever como gente pequena e a pensar a escrita como gente grande. Sou maior mas ainda sou pequena e ainda tenho que crescer muito para escrever mais tarde para meninas de oito anos.
Hoje leio a filha (Catarina Fonseca) e perco-me nos livros mais recheados de coisas belas e estranhas, e mais bem alinhavados e polvilhados de tudo... Quando crescer quero escrever como a Alice e dar poemas a todos. Quero que se leia mais poesia que nunca porque temos uma língua primordialmente poética, num país também primordialmente poético, com sentimentos melancólicos.
obrigada à Alice Vieira a ao prémio (apnljfc)
obrigada ao "Flor de mel" por ser a minha semente
no livro mais feminino (e belo) do poeta valter hugo mãe este dedica o livro
assim, temos um deus grande sem útero que inventa uma única mulher para reproduzir a humanidade.
esta eva um dia revoltar-se-há e falará a deus, por todas as mulheres da história. eu vou escrevê-la.
e porque a condição de mulher é a condição de geradora de vida, por isso de mãe, e por isso éramos vénus no início da história que não era dos homens, e somos agora o género secundário porque o poder maior alguma vez existente na terra é o de gerar vida dentro do corpo; foi o poder do útero que deixou as mulheres na esquina da história para perseguirmos os homens história fora como quem esgravata direitos e vidas podres. vai haver o tempo da redenção dos homens pelo roubo antigo do poder que era feminino e vai haver paz entre os géneros porque estes vão desaparecer e vão ficar só os sexos. o feminino e o masculino, completamente brancos um do outro, quase indistintos. e nessa altura eva vai falar a deus em todas as línguas do mundo.
por tudo isto, hoje é o dia da mulher e o dia de eva, porque todas as mulheres são evas de deus.
a sufragista sempre com o sufrágio feminino na boca
"à minha mãe, o conceito mais absoluto".é-o sempre, mesmo que o esqueçamos, porque é a pura existência reproduzida, e ela vem sempre do útero. nos tempos idos da medieval era, os homens sábios da igreja cristã defendiam que todos nós e todos os seres futuros nascemos e nasceríamos do útero de Eva, um útero gigante que continha todos os seres humanos nascidos e por nascer, como por vontade de um deus... a eva divina era não mais não menos que uma personagem feminina, digna de deus para carregar no seu interior toda a criação divina, ou seja, que deus não haveria nunca de nos ter no seu útero porque apenas o espaço feminino o permite.
assim, temos um deus grande sem útero que inventa uma única mulher para reproduzir a humanidade.
esta eva um dia revoltar-se-há e falará a deus, por todas as mulheres da história. eu vou escrevê-la.
[elas] "têm uma balança no peito onde os homens pesam a boca"
v.h.m. in "a cobrição das filhas"
e porque a condição de mulher é a condição de geradora de vida, por isso de mãe, e por isso éramos vénus no início da história que não era dos homens, e somos agora o género secundário porque o poder maior alguma vez existente na terra é o de gerar vida dentro do corpo; foi o poder do útero que deixou as mulheres na esquina da história para perseguirmos os homens história fora como quem esgravata direitos e vidas podres. vai haver o tempo da redenção dos homens pelo roubo antigo do poder que era feminino e vai haver paz entre os géneros porque estes vão desaparecer e vão ficar só os sexos. o feminino e o masculino, completamente brancos um do outro, quase indistintos. e nessa altura eva vai falar a deus em todas as línguas do mundo.
por tudo isto, hoje é o dia da mulher e o dia de eva, porque todas as mulheres são evas de deus.
a sufragista sempre com o sufrágio feminino na boca
Neste dia ainda bebé vamos comemorar uma data psicológica, a cura do jardim à beira mar plantado (cura tardia...).
Será que já estamos curados daquilo que adormecemos durante séculos? É o dia para refletirmos o que fizemos pelo pedaço de terra pequeno que habitamos. E fazer mais por ele, mimá-lo e dizer que é grande e que o seu povo é quem manda...para não nos esquecermos que liberdade é cada um segurar no pedaço de terra e moldá-lo, ser-mos cada um artífices da nossa terra.
Como escreveu sabiamente, um dos mais sábios desta pátria no seu romance "Os Maias":
"Clamamos por aí, em botequins e livros, “que o país é uma choldra”. Mas que diabo! Porque é que não trabalhamos para o refundir, o refazer ao nosso gosto e pelo molde perfeito das nossas ideias?... Vossa Excelência não conhece este país, minha senhora. É admirável! É uma pouca de cera inerte de primeira qualidade. A questão toda está em quem a trabalha. Até aqui, a cera tem estado em mãos brutas, banais, toscas, reles, rotineiras... É necessário pô-la em mãos de artistas, nas nossas. Vamos fazer disto um bijou!...” Um dia para pensarmos em que mãos deixamos o nosso bijou tosco, e refazê-lo pelo molde das nossas ideias.
Bom cravos amanhã, e que o sol nos presentei com raios novos para iluminarmos mais um 25 deste abril.






