Madrid me mata porque es intensa!
Madrid está renovada e parece que respira melhor. Madrid está menos tensa e mais intensa! Madrid está cheia de gente de todas as cores e línguas e funciona. Madrid está mais saudável, uma cura tardia através de um mal maior. Madrid celebra o 11M num mausoléu a ver brevemente. O Rainha Sofia é sempre perfeito, estavam mais de 50 pessoas a olhar para o Guernica como uma celebração recente da dor e do fabuloso que é sertirmo-nos capazes de a representar; a exposição do Gordon Mata-Clark é fabulosa tal como ele. Manolo Valdés é também excelente e grandioso à espanhola!
De manhã, no bairro Chueca vi uma galeria como haviam de ser todas, a respirar ar cosmopolita e coisas de metrópole. Comi com pauzinhos em plena España, numa cidade em que os pobres são tristes e vivem nos longos subúrbios da cidade. Choveu em Madrid uma chuva miudinha, como benção calada e eu sinto arrepios nos carris da Estación de Atocha.
Com uma vida nova e um sentimento de esperança renovada e de respirar de alívio, parti com a sensação de uma Madrid mais solidária e menos séria do que a que vi há 2 anos (fevereiro de 2004). E nunca parto sem deixar a promessa de voltar outra vez e descobrir como é que esta cidade fria, feia e gigante me pode apaixonar.
Beatriz da Cruz Oliveira (1874-1950)
Na vida, é bom olharmos para trás. É sensato ver para a frente, com o passado presente. Também quando nos vemos ao espelho lembramos os que nos precederam. O sangue antigo nas veias e os olhos, as bocas, os narizes, a tez, o queixo e o olhar que roubamos aos antepassados. O meu alterego é a trisavó, menina burguesa, casada aos 18 anos com um burguês abastado, procriou oito filhos ao longo duma vida entre dois séculos. Tal como eu, passageira entre dois séculos, ela viveu no limbo do tempo, época da história humana que mais me fascina. A passagem dos séculos é, a medo, feita com uma aprensão curiosa dos homens daquilo que se segue, e talvez não seja diferente de viver no meio de um século. Somos duma raça especial, as geração entre-séculos. Eu e a trisavó conhecemo-nos algures no bolso do tempo, uma partilha de traços físicos e uma aspiração à grandeza, à construção, ao sonho dos que vêem nascer os séculos. Eu encarno a trisavó do longínquo fin de siècle no nosso mau século acabado de estrear.
Ontem olhei para o lado e vi uma coisa comum nas esquinas dos dias: as mães comparavam as filhas. As mães gostam de comparar filhas tal como os homens comparam os filhos machos. Bichos de comparação, género por género, geração por geração. Falavam da história das suas formas, quanto mais tarde mais elegante, quanto mais elegante mais medo de mãe do lobo mau.
"O lobo mau é o diabo no corpo das filhas e os homens, são anjos sem asas — acredita".
"O lobo mau é o diabo no corpo das filhas e os homens, são anjos sem asas — acredita".

Boneca antiga, panos retro e experiências com retalhos para fazer disciplinas...
Chamei-lhe "sacola de ir para a escola" porque me lembrou os saquinhos de retalhinhos que nas idas décadas salazaristas as crianças levavam para a escola, com a merenda da tarde e o caderno diário. Foi uma experiência bonita e lembrou-me de quando compus uma tela gigante com páginas e imagens de antigamente, num mausoléu lembrando o mundo infantil português - e política à mistura - das décadas de 30, 40, 50 e 60.

Eu sonho 86400 vezes por dia
eu sonho 86400 vezes por dia
eu sonho 86400 vezes por dia
mais que todos os segundos de um dia
Eu sonho 1440 vezes por dia
eu sonho 1440 vezes por dia
eu sonho 1440 vezes por dia
mais que todos os minutos de um dia
És em cada rectângulo do meu
pensamento, em cada esquina
do meu gesto e morres
por cada lágrima nocturna
e és tantas vezes quanto os precipícios
no meu colo.
O fogo já foi o meu sustento
comia-te como hóstia no
vagar dos dias de lamento
pelo tempo derramado por ti
em melancolias finas de
cadernos escolares.
Soberbo é o amor,
nas pérolas caras do teu sonho.
Não te encontro mais nas vírgulas
dos olhos, para te devolver o sonho lavado.
ou sujo. Tempo, roedor frívolo das minhas unhas
em dias quentes, sem som nas árvores.
Da minha paciência, um suspiro fraco
e da minha consciência a inveja de viver
de cór, sem contar segundos pelos dedos.
Na coragem de dias frios, o sonho gela
na minha planície brava, colho tempestades
como sonhos duros e por vezes o consolo
de um minuto do teu sonho na minha morte.
a Sufragista, em tempo
de contá-lo pelos dedos

Poemas clássicos e cor de rosa
como o mar vermelho.
Cor prostituta, perene e grande.
Coquette: rosa-velho.
Mulheres clássicas: a Olympia e
todas as que nos olharam de frente.
Mundos novos: aqueles em que
a mulher não tem mais cor,
nem feminilidade ou outra coisa,
anónima de significados.
Estética para que te quero!
Morte do estereótipo no dia em
que as cores se fundam ou
os Homens aprendam a falar
sem pré-conceitos na língua
e no corpo. E a abolição dos nomes
e das maiúsculas.
Paz no seio das coisas
belas ou ignoráveis. A obrigatoriedade
da reflecção humana como
sesta de ouro. E ponto final.
Lugar-mistério de gentes diferentes, este é um poço da cultura, já reciclada, ainda por descobrir dos povos antigos que aqui habitavam as colinas e o sopé das encostas mouras. Os muçulmanos, os ciganos, os judeus e mais tarde os católicos dão lugar hoje aos andaluzes, aos ciganos, aos romenos e aos hippies. Uma cidade de cantos urbanos e cantos rurais, como com aldeias dentro de uma urbe, ruelas estreitas, clãs exóticos e muito flamenco na noite.
Na mistura, há uma cidade feita de tudo, urbana, rápida, grande, concentrada, árabe, espanhola, cigana, oriental, musical, rica e estranha. Em três dias, definir um sítio como Granada só se resume em excesso de substantivos. Mas ficam no ouvido as palmas do flamenco e os ritmos compassados da alma árabe deixada como herança exótica aos ciganos e aos andaluzes e um sotaque leve como as folhas de outono, sem "s", que nos parece fazer ouvir o vento da Sierra Nevada, ao longe.
Os bichos são coisas sem sexo
que rastejam na palma da mão.
Quando falam em bichos
é como se chamassem por mim.
Lá no fundo sou uma concha escavada
que rasteja devagar
pelo próprio corpo
O rastejar da vida por mim,
é o som único da
primeira noite de verão,
Quando os bichos preeenchem
a escuridão com o seu
concerto nocturno.
que rastejam na palma da mão.
Quando falam em bichos
é como se chamassem por mim.
Lá no fundo sou uma concha escavada
que rasteja devagar
pelo próprio corpo
O rastejar da vida por mim,
é o som único da
primeira noite de verão,
Quando os bichos preeenchem
a escuridão com o seu
concerto nocturno.

hoje vi uma abelha a passear
era pequenina e descrevia o
caminho da morte
no céu os pássaros contemplam
a vida mais longe da terra
peregrinação grávida de nada
eu tenho a lua no útero
fecundada em mim no primeiro
dia dos astros, mais perto que hoje
nesta lua, grávida de mim,
não há morte.
a existência é precária e
uma intensa perda de ar

Bichos feios em corpo de donzela
belas adormecidas, hipócritas, futéis
e o mundo a girar devagar
tudo a regredir como pétalas a nascerem ao contrário
ou borboletas com longos anos de vida.
E o amor só para flagelar a vida má
e a tortura a sugar vida imperfeita.
Mortos por dentro, renegamos o feio
e escondemos cobardias no bolso,
como quem esconde vergonhas, coisas
que não podes mostrar aos outros.
E mentir diariamente, vestir animais
de gente decente e fingir,
como hábito feio de se fazer todos os dias.
Cuspir para o chão e berrar coisas infames
próprio dos bichos que não se mascaram
como nós. Gente decente mente.
Em corpos montruosos ou nos nossos,
vestir a sinceridade de negro e andar
de luto por ela, pelas ruas a sorrir
aos pobres e a fazer inveja aos sinceros.
Para enterrar, qual bicho morto, as
qualidades que nos assassinam
perante os outros fingindo sentir
e fraquejar sem coração de pedra.
Meninas bem comportadas não gostam,
mas apreciam e as emoções ao rubro
guardam-se junto ao peito para não dar
nas vistas.

Chove por dentro de mim
e tenho as veis alagadas,
sinto frio e água a chover por dentro.
Enquanto chove, movo-me devagar,
como nuvem, de mansinho,
para não acoradar o céu ou
despertar a tempestade humana.
Todos a chuver para dentro
como os que mordem lábios
para fora. Só a esconder e
flagelar coisas poéticas cá
dentro e fazer de conta
que sofrer faz parte do jogo
e que até é bom.
Enquanto chovo para dentro,
aguaceiros constantes no sangue
aquático dos amantes,
o amor torna-se uma pedra
dura para furar com as gotas
salgadas da alma.
E lá no fundo nascem jardins,
e brotam coisas cá dentro
que só vejo quando
a chuva pára. E o dia nasce
em mim, que o sol ilumina
e há mais segredos por
dentro que por fora, babilónias
de tesouros como nunca haviam
nascido antes. Quando o dia
pára em reflexão da água e
o sangue corre para a próxima veia,
comunhão do céu em mim:
toda eu feita de lágrimas
de anjo pagão, numa
alma civil em corpo divino.


