
eu sou de frio de ferro e de fogo
ou mais de metais leves, belezas tristes
e vulgaridades das manhãs diárias.
eu sou de domingos fólcloricos
d'infâncias mortas ontem,
d'instantes curtos e efémeros
como a caligrafia das crianças
e os olhos de lágrimas enxutas.
eu sou de cal de pedra e granito
ou só do vento do meu berço,
eu sou perpetuamente das memórias
fotográficas de sorrir em choro.
brincam nas minhas mãos já crescidas
as memórias dos dias pequenos
e infantis com cheiros doces e
mães para acudir ao berço.
eu sou da nostalgia, da península
como terra abençoada, da vontade
e da saudade. eu sou como ilha
alagada, rodeada de um mar que me
sustenta, me abraça como rio.
eu sou da terra seca e também
dessa húmida, nos segredos fundos
das cidades que percorri.
eu sou já um pouco do mundo e
deixo-lhe como herança pedaços
da minha alma, da minha voz
e do meu ser aureal, fundo e
menos meu. perco-me todos
os dias quando me dou ao som
do mundo, como o eco da minha
alma ao nível das àguas do mar.
piso terra sobre as águas
e sou abstracção cósmica,
pó de estrela antiga ou de
matéria ainda para vir.
olho o céu em contemplação
do tempo, sou-lhe escrava
em adoraçao diária. e sinto-me
virtualmente nada, zero
na pele do tempo.
Vivir con el alma aferrada a un dulce recuerdo, que lloro otra vez
Volver é do sentimento manchano marcado pelo compasso das palmas flamencas, é das lágrimas das mulheres que enterram os homens como fantasmas e se fazem fantasmas delas mesmas, Volver é retro, rural, urbano e Almodóvar. Um filme que me tocou como todos deste homem que marca a Espanha, o cinema e a poética da identidade hispânica. Já há muito que o procurava e hoje parece que veio de encontro a mim para me fazer reflectir as coisas d'agora. Os filmes do Almodóvar parece que vêm sempre tocar me lá no fundo, exacto naquilo que há de mais contemporâneo em mim. Ao encontro dos segredos da alma, ou dos acontecimentos recentes, tocam nos pontos da poética da vida: sempre o feminino, a morte e o sexo. Neste, as gerações de mulheres, o matriarcado, os homens enterrados, a maternidade, a morte e o sonho que aqui é superstição e medo. Um filme sintético, em que são colocados todos os ingredientes à vez, num ritmo compassado de receita de cozinha feminina ou acorde de guitarra, rápido, seguro, certeiro.
Tengo miedo el encuentro con el pasado que vuelve a enfrentarse con mi vida, tengo miedo de las noches que pobladasde recuerdos encadenan mi soñar

foi-me enviado pelo meu querido benjamim um pedido em cadeia de manias pessoais, bichinhos carpinteiros ou hábitos irracionais que incomodam muito os outros e dão comichão na alma. deixo aqui p'ra todos verem os meus dedos, à distância de kilómetros, do outro lado da península.
polegar mania de pensar que me olham de uma forma particular, como se fosse um bicho raro, demasiado desconfiada para acreditar, demasiado crente que ninguém me compreende. sou típica.
indicador mania de apontar dedo a tudo, e examiná-lo meticulosamente, contruindo em volta com precisão uma planta trepadeira de críticas, penso-as eu, construtivas.
médio mania da preguicite aguda e da falta de organização. encontrar-me no meio disso é ainda mais difícil. preguiça demais para começar e levar até ao fim as coisas, demasiadas coisas na cabeça e em cima da mesa para arrumar.
anelar mania de encher a cabeça de preocupação e problemas que não são meus. como uma teresinha de calcutá ao contrário, o mundo é o meu problema mas nao dou de comer aos pobres.
mindinho mania de fazer as coisas direitinhas, perfeitinhas e muito muito picuinhas. ofereçer-me para fazer tudo porque não confio no nível de picuinhice e perfecionismo dos outros. posso fazer eu?!
mando esta mãozinha como pedido gentil a 5 blogues bonitos, um por cada dedinho da mão.
manias da hipólita do nãoengomar, manias dos meninos&meninas do sr.erasmuséumfixe , manias da bjorkeira daqui, manias do josé feitor do escroque, e as manias da rosa pomar da ervilha cor-de-rosa.

dos dias frios sou feita de mármore prateado.
uma paloma branca voa-me sobre a cabeça
brilha e é divina, solta raios de luz santos que
fulminam todos os olhos.
no fim-da-tarde,
quase como estátua de sal a desaparecer
estou como lagoa de vidro a fazer paciências com o sol.
e tal como a criança de pano a romper costuras
vivo no limbo das coisas d’embalar.
sei que nasço do nada
e roubo o tempo ao respirar.
como infanta morta a ressucitar vivos,
sopro a vida no seio, receita de milagres diários.
No instante, contado cem vezes ao dia
sou pássaro pobre no limite da vida
que voa sem beleza nas asas e caio de feio.
calco o único passo da gravidade e tenho
em mim a certeza do último suspiro.
a sufragista, dos dias frios com cinzentos de luz e
morte branca no horizonte

Barcelona é como os azulejos dos bancos do Parc Guëll. Colorida de coisas diferentes, fragmentadas, irregulares, estranhas e sempre diferentes. Barcelona tem algo de antigo vanguardista e de um novo que soa a antigo. Barcelona é contemporânea nas coisas de outros tempos e nas de agora e é também pretenciosa quanto baste e especialmente carismática. Daquelas cidades que se sente cosmopolita no ar e que se passeia sobre si mesma, nariz empinado e vaidosa até mais não. Mas podem conviver todos ali, os pobres, os ricos, os feios, os belos, os do norte e os do sul, os catalães, os espanhóis e os estrangeiros. Apesar da aparente democracia de metrópole, é um sítio em que cada um tem o seu papel definido, construído e escrito naquilo que veste e aparenta, rotulados e embrulhados como gente de Barcelona.
Mas acolhe cada um na sua peculiaridade de sítio grande, multiracial e multiligue. Apesar da sensação de um Gaudí-para-turistas por todo o lado, há também um Gaudí, padroeiro do Modernismo catalão e diseñador eterno da cidade, cuja aura se sente inerente a Barcelona.
(para o homem dos objectos cardíacos,
v.h.m., benjamim para mim)
Lavagem Cardíaca
processo segundo o qual lavo
o meu coração. Incluí:
aspiração completa, desinfecção,
limpeza a seco ou
secagem automática.
Coisa feia de se ver: operação
a sangue frio. Abrir o peito
com faca e garfo e preparar a
refeição da dor. Sucos, sangue
e líquens em aspiradores.
Bombeação artificial, com assistência
de 20 enfermeiros formados
no meu coração. Alguns com mestrado.
(E tu, doutoraste-te no meu coração?)
Assiste-o e não o deixes
muito tempo de fora
para todos poderem ver.
Quando acabares e deres o
último ponto sobre o
seio esquerdo, esquece-o
para sempre e não o publiques
numa revista científica.
Deixa-o suturado para mim,
pago-te sem seguro de
saúde em hospital privado,
roubas-me mais tratamentos
adicionais mas esquece-o!
O coração ainda é meu,
mais salvo por ti mas
meu. Cirúrgião corrupto do
meu amor, não me
salves a alma pelo bisturi.
Salva-te antes a ti
do meu coração.
Sou hoje metade de mim, sou hoje metade do que fui ontem, envelheço no entanto. Já velha, remoo as coisas facéis de ontem as coisas trémulas e até memórias de invernos recentes. Sou nova, mas velha dentro do novo, recente e estreado hoje. Não me escondo debaixo-da-cama, este chão repugna-me, eu ofendo-o. Enriqueço no instante o ar de forma acidental, porque sou coisa estranha às partículas mortas.
dos dias sem mim, filosofia da vassoura
a sufragista-gata-borralheira-floribela
(http://casadeosso.blogspot.com) a ti celebro-te porque a tua casa de osso volta a ser o que era e melhor ainda, parabéns benjamim
Madrid me mata porque es intensa!
Madrid está renovada e parece que respira melhor. Madrid está menos tensa e mais intensa! Madrid está cheia de gente de todas as cores e línguas e funciona. Madrid está mais saudável, uma cura tardia através de um mal maior. Madrid celebra o 11M num mausoléu a ver brevemente. O Rainha Sofia é sempre perfeito, estavam mais de 50 pessoas a olhar para o Guernica como uma celebração recente da dor e do fabuloso que é sertirmo-nos capazes de a representar; a exposição do Gordon Mata-Clark é fabulosa tal como ele. Manolo Valdés é também excelente e grandioso à espanhola!
De manhã, no bairro Chueca vi uma galeria como haviam de ser todas, a respirar ar cosmopolita e coisas de metrópole. Comi com pauzinhos em plena España, numa cidade em que os pobres são tristes e vivem nos longos subúrbios da cidade. Choveu em Madrid uma chuva miudinha, como benção calada e eu sinto arrepios nos carris da Estación de Atocha.
Com uma vida nova e um sentimento de esperança renovada e de respirar de alívio, parti com a sensação de uma Madrid mais solidária e menos séria do que a que vi há 2 anos (fevereiro de 2004). E nunca parto sem deixar a promessa de voltar outra vez e descobrir como é que esta cidade fria, feia e gigante me pode apaixonar.
Beatriz da Cruz Oliveira (1874-1950)
Na vida, é bom olharmos para trás. É sensato ver para a frente, com o passado presente. Também quando nos vemos ao espelho lembramos os que nos precederam. O sangue antigo nas veias e os olhos, as bocas, os narizes, a tez, o queixo e o olhar que roubamos aos antepassados. O meu alterego é a trisavó, menina burguesa, casada aos 18 anos com um burguês abastado, procriou oito filhos ao longo duma vida entre dois séculos. Tal como eu, passageira entre dois séculos, ela viveu no limbo do tempo, época da história humana que mais me fascina. A passagem dos séculos é, a medo, feita com uma aprensão curiosa dos homens daquilo que se segue, e talvez não seja diferente de viver no meio de um século. Somos duma raça especial, as geração entre-séculos. Eu e a trisavó conhecemo-nos algures no bolso do tempo, uma partilha de traços físicos e uma aspiração à grandeza, à construção, ao sonho dos que vêem nascer os séculos. Eu encarno a trisavó do longínquo fin de siècle no nosso mau século acabado de estrear.
Ontem olhei para o lado e vi uma coisa comum nas esquinas dos dias: as mães comparavam as filhas. As mães gostam de comparar filhas tal como os homens comparam os filhos machos. Bichos de comparação, género por género, geração por geração. Falavam da história das suas formas, quanto mais tarde mais elegante, quanto mais elegante mais medo de mãe do lobo mau.
"O lobo mau é o diabo no corpo das filhas e os homens, são anjos sem asas — acredita".
"O lobo mau é o diabo no corpo das filhas e os homens, são anjos sem asas — acredita".

Boneca antiga, panos retro e experiências com retalhos para fazer disciplinas...
Chamei-lhe "sacola de ir para a escola" porque me lembrou os saquinhos de retalhinhos que nas idas décadas salazaristas as crianças levavam para a escola, com a merenda da tarde e o caderno diário. Foi uma experiência bonita e lembrou-me de quando compus uma tela gigante com páginas e imagens de antigamente, num mausoléu lembrando o mundo infantil português - e política à mistura - das décadas de 30, 40, 50 e 60.

