
a minha rainha, um génio vestido de adolescente precoce.
para ouvir com atenção e muito humor. uma miúda de revivalismos subtis e uma imagem e som que parecem reciclados do novo. uma coisa nova a cheirar a tempos nunca vistos e de uma personalidade autêntica e deliciosa. linda!
Animal Collective Winter's Love
Há musicas quase tão perfeitas como um filme de muitas músicas perfeitas, feito de pedaços de futilidade, parvoíce e coisas sérias. há filmes e músicas que nos despertam a alma a fazerem a esperança chorar de brilhos nos olhos.
Esta música dos animal collective é uma dessas, das que dão paz e ao mesmo tempo, uma esperança só de querer respirar melhor para ver mundos brilhantes, leves e quentes como músicas perfeitas.
Quando se encontram músicas destas tais pérolas em filmes brilhantes de música perfeita (yo la tengo, animal collective, scott matthew, the ark) sabe bem esperar pelo fim do genérico a espiolhar autorias e coisas de sentir com a alma. nas salas de cinema, acho que as almas por vezes se elevam e ficam coladas ao tecto, a olharem para baixo, tal entusiasmo de iluminação repentina. gosto só de ver filmes que me iluminem por dentro, e especialmente, dos que só me dão vontade de sair do cinema a sorrir, alma longe e contente.
minutos antes havia também escrito isto... achei-o mais tarde num post perdido
as músicas que nos transcendem são quase tão fantásticas como um filme de muitas músicas perfeitas numa obra vibrante: "esclarecedora", iluminadora, coisa de luzes nas coisas fúteis e bárbaras, de risos sobre as coisas incómodas e duma sinceridade que faz chorar a esperança. Esta música dos animal collective é uma música dessas que dão uma paz interior tão inebriante e brilhante por dentro como as maravilhas do devendra banhart e do antony. Esta música, duma tribalidade urbana sobre um inverno que soa a quente, é um pretexto excelente para ver o filme shortbus, que ganha um significado novo e uma força essencial com esta música e as baladas lindas do scott matthew. Coisas nova-iorquinas duma globalidade incessante, uma sensação ilusória de partilha mundial do desespero e da esperança, uma futilidade brilhantemente filmada.
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| Piero Fornasetti |
As meninas crescem sem saberem. Observam de tempos a tempos a alma cuidadosamente para não a rasgar, penteiam-na, limpam-na, sabem-na maior, mas guardam segredo para elas mesmas. Lá no fundem sentem a alma envelhecida, mais nobre.
A sua vontade Peter Pan de alma jovem em corpo-de-menina-grande rouba-lhes os dias à procura de defeitos na alma. São meticulosas na sua ignorância do crescer. Enquanto a alma envelhece, o corpo quer-se jovem, cuidadosamente jovem, sempre cuidado, sem perigo de denunciar infância ou velhice. A idade é um segredo guardado entre a alma e o coração; para os outros são o corpo, as virtudes da alma são a pele desse corpo e os defeitos só os vêem à meia-luz. Nos segredos pequenos dessa alma adolescente sentem o coração como bicho faminto, coisa pulsante por vida e de vida. Sabem-no delirante por bater mais, e acalmam-no, educando a sua pulsação. Comportar esse coração é tarefa difícil, um equilíbrio balançante entre as mãos e a cabeça.
Todas as partes do corpo são medidas, estudadas, equacionadas em surpresas e desafios matemáticos: medir o corpo até à profundidade, tirar as medidas de cór sem ver a alma ao espelho, um único milímetro faz a diferença da imagem que têm de si mesma a cada instante.
Quando o corpo desaponta, a alma corrige, fala a consciência por ela e desmente mentiras para si mesma. As meninas são poços de mentiras delas mesmas por corrigir, reescrevem-se todos os dias enquanto se banham e analisam as imperfeições da pele. Magras, esguias, tristes ou volumosas de medo, as meninas que crescem sopram suspiros para exalar os medos do corpo.
Ao crescer exalam perfumes de Primavera e não são mais corpo e alma, para serem cadernos de almas por escrever. Todos os dias uma nova, mais bela, mais penteada, limpa, perfumada e amadurecida. As meninas quando crescem não dão por isso. Lembram-se mais tarde que se viram crescer, através da película fina da alma, viam coisas por ser e outras já vividas.
Uma janela grande no peito ilumina-se pelas noites como estrela morta, e a alma descansa em paz, num corpo maior.
as meninas, filosofia feminina da infância
ou dos corpos crescentes

Menina era inocente. Vítima da sua própria incompletude, a ignorância era para ela uma virtude pois conhecer não era seu objectivo. Saber viver, para Menina, era ser com a maré do tempo, segui-la para
onde fosse e não saber de dentro de si, apenas ser para fora. Menina era para si o seu reflexo de fora de si mesma, o que via era o que os Outros viam, e só sabia de si porque os Outros sabiam.
onde fosse e não saber de dentro de si, apenas ser para fora. Menina era para si o seu reflexo de fora de si mesma, o que via era o que os Outros viam, e só sabia de si porque os Outros sabiam.
Antes de a conhecer achei que Menina não poderia viver sozinha pois acabaria por se esquecer da sua própria existência. Mas não. Menina vive muitas vezes sozinha e não se esquece de si mesma. Não pensa em si, apenas vive para fora sem dizer palavra porque tão pouco fala para dentro de si, apenas para os Outros. No entanto, por raro que pareça, Menina não se perde de si, nem desespera!, é Menina sem pensar em ser Menina e sem pensar nos Outros.
Eu quero ser como Menina.

eu sou de frio de ferro e de fogo
ou mais de metais leves, belezas tristes
e vulgaridades das manhãs diárias.
eu sou de domingos fólcloricos
d'infâncias mortas ontem,
d'instantes curtos e efémeros
como a caligrafia das crianças
e os olhos de lágrimas enxutas.
eu sou de cal de pedra e granito
ou só do vento do meu berço,
eu sou perpetuamente das memórias
fotográficas de sorrir em choro.
brincam nas minhas mãos já crescidas
as memórias dos dias pequenos
e infantis com cheiros doces e
mães para acudir ao berço.
eu sou da nostalgia, da península
como terra abençoada, da vontade
e da saudade. eu sou como ilha
alagada, rodeada de um mar que me
sustenta, me abraça como rio.
eu sou da terra seca e também
dessa húmida, nos segredos fundos
das cidades que percorri.
eu sou já um pouco do mundo e
deixo-lhe como herança pedaços
da minha alma, da minha voz
e do meu ser aureal, fundo e
menos meu. perco-me todos
os dias quando me dou ao som
do mundo, como o eco da minha
alma ao nível das àguas do mar.
piso terra sobre as águas
e sou abstracção cósmica,
pó de estrela antiga ou de
matéria ainda para vir.
olho o céu em contemplação
do tempo, sou-lhe escrava
em adoraçao diária. e sinto-me
virtualmente nada, zero
na pele do tempo.
Vivir con el alma aferrada a un dulce recuerdo, que lloro otra vez
Volver é do sentimento manchano marcado pelo compasso das palmas flamencas, é das lágrimas das mulheres que enterram os homens como fantasmas e se fazem fantasmas delas mesmas, Volver é retro, rural, urbano e Almodóvar. Um filme que me tocou como todos deste homem que marca a Espanha, o cinema e a poética da identidade hispânica. Já há muito que o procurava e hoje parece que veio de encontro a mim para me fazer reflectir as coisas d'agora. Os filmes do Almodóvar parece que vêm sempre tocar me lá no fundo, exacto naquilo que há de mais contemporâneo em mim. Ao encontro dos segredos da alma, ou dos acontecimentos recentes, tocam nos pontos da poética da vida: sempre o feminino, a morte e o sexo. Neste, as gerações de mulheres, o matriarcado, os homens enterrados, a maternidade, a morte e o sonho que aqui é superstição e medo. Um filme sintético, em que são colocados todos os ingredientes à vez, num ritmo compassado de receita de cozinha feminina ou acorde de guitarra, rápido, seguro, certeiro.
Tengo miedo el encuentro con el pasado que vuelve a enfrentarse con mi vida, tengo miedo de las noches que pobladasde recuerdos encadenan mi soñar

foi-me enviado pelo meu querido benjamim um pedido em cadeia de manias pessoais, bichinhos carpinteiros ou hábitos irracionais que incomodam muito os outros e dão comichão na alma. deixo aqui p'ra todos verem os meus dedos, à distância de kilómetros, do outro lado da península.
polegar mania de pensar que me olham de uma forma particular, como se fosse um bicho raro, demasiado desconfiada para acreditar, demasiado crente que ninguém me compreende. sou típica.
indicador mania de apontar dedo a tudo, e examiná-lo meticulosamente, contruindo em volta com precisão uma planta trepadeira de críticas, penso-as eu, construtivas.
médio mania da preguicite aguda e da falta de organização. encontrar-me no meio disso é ainda mais difícil. preguiça demais para começar e levar até ao fim as coisas, demasiadas coisas na cabeça e em cima da mesa para arrumar.
anelar mania de encher a cabeça de preocupação e problemas que não são meus. como uma teresinha de calcutá ao contrário, o mundo é o meu problema mas nao dou de comer aos pobres.
mindinho mania de fazer as coisas direitinhas, perfeitinhas e muito muito picuinhas. ofereçer-me para fazer tudo porque não confio no nível de picuinhice e perfecionismo dos outros. posso fazer eu?!
mando esta mãozinha como pedido gentil a 5 blogues bonitos, um por cada dedinho da mão.
manias da hipólita do nãoengomar, manias dos meninos&meninas do sr.erasmuséumfixe , manias da bjorkeira daqui, manias do josé feitor do escroque, e as manias da rosa pomar da ervilha cor-de-rosa.

dos dias frios sou feita de mármore prateado.
uma paloma branca voa-me sobre a cabeça
brilha e é divina, solta raios de luz santos que
fulminam todos os olhos.
no fim-da-tarde,
quase como estátua de sal a desaparecer
estou como lagoa de vidro a fazer paciências com o sol.
e tal como a criança de pano a romper costuras
vivo no limbo das coisas d’embalar.
sei que nasço do nada
e roubo o tempo ao respirar.
como infanta morta a ressucitar vivos,
sopro a vida no seio, receita de milagres diários.
No instante, contado cem vezes ao dia
sou pássaro pobre no limite da vida
que voa sem beleza nas asas e caio de feio.
calco o único passo da gravidade e tenho
em mim a certeza do último suspiro.
a sufragista, dos dias frios com cinzentos de luz e
morte branca no horizonte

Barcelona é como os azulejos dos bancos do Parc Guëll. Colorida de coisas diferentes, fragmentadas, irregulares, estranhas e sempre diferentes. Barcelona tem algo de antigo vanguardista e de um novo que soa a antigo. Barcelona é contemporânea nas coisas de outros tempos e nas de agora e é também pretenciosa quanto baste e especialmente carismática. Daquelas cidades que se sente cosmopolita no ar e que se passeia sobre si mesma, nariz empinado e vaidosa até mais não. Mas podem conviver todos ali, os pobres, os ricos, os feios, os belos, os do norte e os do sul, os catalães, os espanhóis e os estrangeiros. Apesar da aparente democracia de metrópole, é um sítio em que cada um tem o seu papel definido, construído e escrito naquilo que veste e aparenta, rotulados e embrulhados como gente de Barcelona.
Mas acolhe cada um na sua peculiaridade de sítio grande, multiracial e multiligue. Apesar da sensação de um Gaudí-para-turistas por todo o lado, há também um Gaudí, padroeiro do Modernismo catalão e diseñador eterno da cidade, cuja aura se sente inerente a Barcelona.


