O “meu” bairro a gentrificar. Apesar de só ter vivido três meses naquele canto de Lisboa, será para sempre a minha morada favorita, na capital e de todas as outras moradas mais ou menos temporárias que conheci na minha vida. Além da intensidade do que vivia naquela época, há seis anos atrás, o carisma natural daquela zona, e o seu ar abandonado na altura, sempre me atraiu. Muito próximo do centro, mas longe o suficiente para ter um ritmo próprio, muito mais lento e menos superficial que nas zonas mais populares de Lisboa. Na altura, gostava de me perder por aquelas ruas, fazer compras nas mercearias dos indianos, visitar os poucos cafés improváveis que aconteciam por ali, e comprar pão e bolos na padaria da Rua do Poço dos Negros. Estava tudo por gentrificar, aliás, tudo por ocupar. O pouco comércio tradicional que existia estava entregue a quem se quis ocupar dele ou quem desde há muito se havia ocupado dele e permanecia, e eram cada vez menos. Todos os outros sítios que haviam sido lojas estavam, ora fechados ora meio-destruídos, ora meio-abandonadas. E era uma coleção de lojas e de fachadas de meter inveja. Era só uma questão de tempo até se perceber o potencial (imobiliário também) daquela zona, que promete uma qualidade de vida improvável no centro de Lisboa.
Durante o último mês do ano passado mostrei pela primeira vez ao vivo (numa loja pop-up) o resultado deste ano inteiro de trabalho focado em renovar a Mariamélia — um projeto que já conta com quatro anos de existência sem nunca se ter definido por completo. Neste último ano, decidimos encontrar um objetivo e persegui-lo, montar um projeto no qual acreditamos e fazer dele a nossa atividade profissional a tempo inteiro.
Mas como em todos os projetos, e todas as percerias, há um momento crítico em que percebemos que temos que tomar decisões difíceis porque o caminho que as coisas estão a tomar não é consensual ou então porque não vemos os resultados que esperávamos. Neste caso, a parceria que tinha formado o projeto deixou de fazer sentido porque já não era ela que sustentava o projeto — na verdade, era o projeto que sustentava essa parceria, e isso não fazia sentido.
Resolvemos por isso terminar essa parceria e eu decidi seguir com o projeto a solo, contando com as muitas pessoas com que colaboro regularmente: na sua maioria artesãos e makers locais, que trabalham desde a madeira e o metal, do vime à cana, da cerâmica aos têxteis. Sem esta rede fundamental de pessoas não havia Mariamélia. A nova Mariamélia nasceu exatamente desta rede de contactos, de experiências que resultaram e do trabalho que tem sido desenvolvido desde o final de 2017 — e sem esta rede não seria nada. Uma das ideias mais importantes a retirar desta nova fase é exatamente esta: um projeto tem de estar assente em pessoas e contactos sólidos — sem esses contactos, fechados numa bolha, não é possível construir um projeto pertinente, que tenha impacto e que se proponha a ter voz sobre uma série de matérias: como um consumo (politicamente) mais consciente, um estilo de vida mais lento, baseados na necessidade de viver de uma forma realmente sustentável.
Além dos artesãos com que colaboramos, os nosso fornecedores de materiais — que vão desde pequenas fábricas nacionais a lojas de comércio tradicional na cidade — são outros parceiros essenciais, sem os quais seria muito difícil desenvolver produtos tão diversos, e garantir uma escala artesanal e local em cada um desses produtos.
A propósito desta mudança, decidi continuar a falar no plural, porque a Marimélia é cada vez mais um projeto a muitas mãos, e a tantas vozes, que me ajudam nos momentos mais difíceis, e nas decisões menos consensuais.
A Mariamélia é, também por isso, a soma de todas as coisas que gosto de fazer, e reflete muitos dos valores de trabalho, consumo e filosofia de vida que defendo e sigo. Tem sido, aliás, um projeto que "alicerça" os meus ideais de vida, propondo alternativas de consumo mas também exigindo de mim uma coerência e consistência nas escolhas que faço. E isso tem sido mais que bom!
Acompanhem diariamente a Mariamélia no instagram e no facebook, e quinzenalmente, subscrevendo a newsletter que escrevo e componho duas vezes por mês. Se gostam de blogues, leiam também os artigos que escrevo no blogue do projeto.
antes de ver A Favorita
A seleção musical do ano de 2018, escolhidas na ressaca do ano seguinte. Poucos repetentes, muitas novidades boas.














