Eu, que passei anos com tantas reticências em relação a partidos e com problemas em assumir a militância de algum, desde que chegou o Livre, em 2014, senti uma verdadeira lufada de ar fresco no panorama da política nacional.
Quando falam em pessoas à frente do seu tempo lembro-me do Baldwin. As pessoas à frente do seu tempo são apenas aquelas que escolhem estar ao lado porque não há outro sítio para elas na sociedade da sua época. A Hanna Gadsby (no “Nanette”) também diz umas coisas engraçadas sobre esta expressão e sobre as ideias de genialidade e de criatividade. A propósito da genialidade e do selo de "artista incompreendido" de Vincent Van Gogh, Gadsby desconstroi esta ideia-feita da seguinte forma:
"(...) Nobody is born ahead of their time. It’s impossible! Nobody’s born ahead of their time! Maybe premmie babies, but they catch up! Artists don’t invent zeitgeists! They respond to it. He was not ahead of his time (...)"
O Baldwin era visionário mas aquilo que ele diz só está a ser realmente ouvido quase 30 anos depois de morrer. Já dizia o Joe no “Anjos na América” (T. Kusnher): “Time is conservative, it moves slowly”. Penso nesta frase muitas vezes principalmente porque obceco muito com tempo e memória: o tempo não detém personalidade, não é conservador tal como um advogado republicano, o Joe, mas nós somos, quando nos organizamos (socialmente) para impedir mudanças de poder. A História soa-me sempre à história da mudança de poder, “Rei morto, rei posto”: a história da sucessão e das heranças. Se o poder que conhecemos no Ocidente, no último milénio (pelo menos) tem sido repetidamente passado entre homens brancos, então essa é a cara familiar onde o poder está: o poder está no chefe de família, no professor, no empresário, no político — no "Responsável".
Habituamo-nos a reconhecer o poder numa horda de homens brancos engravatados e de meia idade que gerem, decidem e controlam. Qualquer outro rosto é parcialmente controlado, apoiado ou veiculado pelos homens brancos. Porque eles deixam. Porque eles permitem que às vezes sejam homens negros, ou de outros tons de pele (como o PM português), de outras religiões ou etnias, de outras nacionalidades, com outros sotaques e às vezes, sob grandes excepções, até mesmo mulheres. Nos casos mais raros, pessoas que assumem sexualidades diferentes da norma ou mesmo não binárias. No limite, alguém que acumule algumas destas condições, como mulheres negras, de que há finalmente uma representante no Governo, faltando ainda a devida representação no nosso parlamento.
Viajar ao verão de 1993 pelos olhos de uma menina da minha idade fez-me recordar aquelas coisas que esquecemos ou apagamos da memória porque são apenas demais para as fixarmos. Normalmente são demasiado más.
Alguns anos antes, em 1990, também a minha mãe tinha ficado doente, não da doença do século passado, mas da doença deste século. Quando eu tinha quatro anos a minha mãe tinha cancro da mamã, a doença do lacinho cor-de-rosa, como vim a descobrir mais tarde, um lacinho paternalista que nunca adocicou nada do que vivemos.
Aos seis, como Frida, eu poderia ser meia-órfã, mas a sorte escolheu dar-me uma mãe quase por inteiro — com algumas sequelas — por mais de uma década, quase duas. Meses antes antes de completar 24 anos a minha mãe morreu da mesma doença. E só quase dez anos depois consigo escrever sobre isso, não sem uma pequena catarata bochechas abaixo. “As minhas lágrimas já não saltam” dir-lhe-ia hoje.
Desde sempre dada ao drama ocasional, emocionalmente extra-sensível, chorar era para mim quase como respirar ou dormir. Até muito tarde na minha vida a minha mãe, para banalizar o drama e brincar com a minha tendência ‘madalena’, dizia que as minhas lágrimas eram saltitonas. Tal era a torrente de água salgada, as minhas lágrimas chegavam ao desfiladeiro da minha bochecha proeminente e caiam no abismo, como se saltassem para uma morte certa. Era uma imagem digna de qualquer boa BD, de que tanto ela gostava. “Quando morreste elas deixaram de saltar”. Agora só percorrem o rosto pacientemente, bochecha abaixo até ao pescoço, se não as paro antes.
Quase que podia precisar o momento em que aconteceu, mas nunca seria senão um desejo que alimenta a minha dramaturgia. Depois da incineração, no Tanatório — nome próprio para um sítio onde parecem dedicar-se à tortura — vi um vidro estilhaçado. Uma simples parede de vidro, à entrada, que estava ainda inteira mas estilhaçada por dentro. Talvez fosse por semelhança com o meu estado de espírito, mas aquela imagem foi o suficiente para desatar o choro — e o desespero — que guardava por dentro, após uma manhã ou o que tivesse sido (a memória é difusa) de visões muito mais perturbadoras do que tudo o que eu já tinha presenciado antes da morte.
Já era tempo de revermos que os rituais da morte, tal como tantos da vida, não nos servem a todos. E que por vezes precisamos de fazer as coisas de uma forma só nossa. O catolicismo instituído não ajuda, e esta forma séria e quase profissional de lidar com a morte não me servem. Preferia um luto cigano, um choro árabe, cheio de catarse, a livrar-me desses demónios todos que me ocupavam a alma muito negra, muito culpada, como boa católica que nunca fui.
Ao contrário da Frida do Verão de 1993, eu tinha (só) uma avó pouco dada à religião. O máximo de fervor religioso que lhe vi foi a visita copiosa, a cada Domingo, à capela mortuária do cemitério, quando morreu o meu avô. Também no ano de 1990. Nesse ano, acompanhava a minha mãe e a minha avó nas excursões matinais ao cemitério, com mudas de flores muito demoradas para uma menina de quatro anos. Havia uma roseira que trepava do lado direito da porta e que me entretia enquanto lhe partia os grandes picos do tronco. Esse ritual durou apenas alguns meses, e fez-me esquecer aquele sítio até voltar inevitavelmente à roseira, que entretanto secou, e a uma capela com mais de um século que agora albergava tanto os meus antepassados como as mesmas pessoas que eu acompanhava nessas visitas de domingo.
A lógica perpétua da vida a penetrar a pele e a memória. O abismo da vida. Escrever, quase sempre, é como arrancar os picos daquela roseira. Já sei que me vou picar, mas é tão difícil resistir-lhes.
Sem a Frida, no entanto — personagem que eu sabia que tinha de conhecer no grande ecrã mal li a sinopse do filme — a minha catarse adiada poderia estar ainda por adiar. E a leveza que vou sentir em breve, sempre agridoce, vai-me deixar em paz em relação à culpa por ter deixado secar aquela roseira, por ter deixado apodrecer aquela pequena capela centenária e por não ter salvo o pinheiro bravo que ocupava iminente o pequeno jardim da frente da casa dos avós, que foi a casa especial da minha infância e do verão de 1994.












