Gaslighting

By sufragista - outubro 13, 2019

Não consigo explicar ainda a sensação de descobrir finalmente, com um atraso de quase dois anos, o diagnóstico daquilo por que passei durante anos. E é quase como uma doença, cheia de sintomas, sinais de alerta e consequências. Só que não se vê.

Falarmos publicamente — também graças à cumplicidade das redes sociais — sobre doenças mentais e comportamentos psicológicos e psíquicos, tem sido uma descoberta do melhor que pode unir as pessoas. Por mais invasor que estes discursos nos pareçam, esta discussão pode ser decisiva para quem está a passar por coisas que não consegue explicar, porque não há palavras para elas. Falar de saúde mental é também inventar um novo léxico, para podermos nomear o impossível. Sem nomeações, as confusões e os maus diagnósticos são imensos. Sem sabermos como falar do que sentimos, optámos por não falar porque o estigma está lá primeiro.

Há cinco anos um simples cartoon sobre o Gaslighting tinha-me provavelmente salvo a pouca sanidade mental que me restava. E provavelmente, teria-me poupado aos anos que se seguiram. É como ler a bula de um medicamento que descreve exatamente todos os nossos sintomas: é a panaceia certa. É exatamente o que sinto, como se me visse ao espelho, um em que posso confiar.

Ainda hoje, muitas vezes, dou por mim a questionar o meu papel de vítima. E sei que será sempre assim. Ninguém quer ser vítima a vida toda. A importância de saber que fui vítima é inigualável, e só preciso ler de alguns artigos sobre Gaslighting para voltar a saber isso. As vítimas, por definição, não têm culpas, mas passam uma vida inteira com a culpa por companheira. Por definição, alguém torna-se vítima no exato momento em que lhe inculcam a culpa. Isto pode acontecer na infância ou na adolescência e fica em nós para sempre.

Poder agora dar um nome à culpa, e não me refugiar nas teorias neo-freudianas do século passado, ou na ideia de que estamos todos a sentir demais (há disso?), é apenas um passo na direcção certa.

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