do lobo mau.
que me tivessem avisado:
olha que ele, é lobo
em pele de cordeiro.
Primavera adentro
pela janela aberta
Pousou em todos
os móveis,
e nas minhas
pernas
Soubesse eu
tratar-se de uma
andorinha
Havia guardado
aquele pássaro.
Até me esquecer
da casa,
da morada
do meu coração
escancarado.
A saber: a perda, tal como um homem
é uma coisa sozinha sem dono.
A tê-la, nossa, é também de sofrer sozinhos.
Nunca partilhamos as perdas, nem as partidas.
Só o fôlego desse intervalo magro
entre largar a mão da tua presença.
Saber aquilo que me mirrava no peito
mas também no centro do coração:
uma estrela tão grande que crescia sem pontas,
só brilho.
Se acordo de um sopro,
adormeces naquele
segundo emprestado.
O amor só suga
o único ar intransmissível.
Porto, junho 2015

depois
Até o meu cabelo, apostado em não crescer anos a fio
parecia brotar do cucuruto, e da nuca, louco em longuras
depois que te deixei.
E as falas claras e concisas das conversas a ficarem para trás,
só um sussurro entre-dentes no passado.
E os gestos infinitos sempre os mesmos,
a serem agora revistos pela mãos novas que fiz.
Até os olhos, depois de te deixar,
são mais fáceis agora e sem aquela tristeza
que era da indiferença.
Depois de te deixar voltei a fotografar as mesmas imagens
que conhecia antes de saber quem eras.
Será que nunca soube de ti por causa das imagens velhas?
Ficarmos ocos por dentro nunca é uma opção.
É um desvio.
É para ficarmos a saber que o amor
nos rouba (sempre) à poesia.
Porto, junho 2015
Até o meu cabelo, apostado em não crescer anos a fio
parecia brotar do cucuruto, e da nuca, louco em longuras
depois que te deixei.
E as falas claras e concisas das conversas a ficarem para trás,
só um sussurro entre-dentes no passado.
E os gestos infinitos sempre os mesmos,
a serem agora revistos pela mãos novas que fiz.
Até os olhos, depois de te deixar,
são mais fáceis agora e sem aquela tristeza
que era da indiferença.
Depois de te deixar voltei a fotografar as mesmas imagens
que conhecia antes de saber quem eras.
Será que nunca soube de ti por causa das imagens velhas?
Ficarmos ocos por dentro nunca é uma opção.
É um desvio.
É para ficarmos a saber que o amor
nos rouba (sempre) à poesia.

é a complacência que se reflecte sobre si mesma, se reactiva em autocomplacência, num amor de se amar de se amar de se amar.

eu não conhecia o nome das coisas.
eram-me sabidas mas estranhas.
eram-me sabidas mas estranhas.
no intervalo do dia era o sol que te dizia o meu nome.
a estranheza não perdurou
souberam-te todas as coisas desconhecidas,
aprenderam-me no fim da noite caladas e importantes.
gotemburgo, abril 2012

viver sem voo.
sabê-lo escondido nas vertebras de ave ou costas de anjo,
um corpo a tornar-se vento, de pé na terra ao céu é um pulo.
e querer nunca mais pousar depois de te saber nesse voo divino.
desejar-te um voo para sempre, leve como a eternidade,
as tuas penas pequenas e invisíveis nas asas estreadas.
como desenhar os dias com bico de ave.
quando se perde o pôr-do-sol
é como se nunca tivesse acabado o dia.
saber a calma dos dias
gota a gota.
tudo em ordem, as coisas
tudo em ordem, as coisas
a acontecerem no tempo
de cada uma.
sem antevisão.
o tempo no seu lugar, os sítios
sem antevisão.
o tempo no seu lugar, os sítios
com o tempo certo.
a hora que fluí nas coisas.
elas vão, adaptam-se,
sem serem pensadas.
a ordem das coisas sem direito,
apenas o instinto de olhar o
tempo e desenhá-lo no contorno do dia.
Vejo no reflexo dos teus olhos
a espera dos dias de verão
um poema fresco à beira-mar
que só me consome a memória
e o olhar que pára
a concentrar-se nas imagens
dos sonhos antigos.
sei que no meio da estação
está a virtude de todo o ano
é como encontrar a virtude
do poema, sempre escondida
no coração da mesma palavra.
Estou num comboio fantasma. A sensação de um comboio vazio de gente, de indicações, limpo de sinais... só um comboio. Anónimo.
— Acho que vai para Nenhures — disse alguém ao seu lado.
Um passageiro fantasma? Um homem velho que não tinha visto chegar, distraída a escrevinhar no seu caderninho preto, tentando lutar contra a velocidade desajeitada do comboio que a fazia saltitar letras pelas páginas do caderno.
— Desculpe? Disse que vai para onde? — peguntou ela, meio a fingir que não ouvira o comentário, meio curiosa.
— Para Nenhum Lado. Nunca esteve lá? — o homem continuou sem esperar a resposta — É um sítio lindíssimo, passei lá belos tempos, só não me lembro quando... (Falava como se fosse consigo mesmo, como se pensasse em voz alta.)
fim-de-tarde com céu de juízo final. nuvens douradas, polvilhadas de luz cor-de-rosa, jorravam a luz divina do armageddon sobre a praça dão joão primeiro. autocarro. sento-me de costas, maravilhada com as criaturas sentadas à minha frente, uma de cada lado, as quais me dediquei a observar copiosamente em deleito criativo. do meu lado direito, a mulher-sem-cabeça, mulher que dorme quase-morta, pálida, cabeça inclinada para trás, o peito projectado para cima como se falasse, uma ferida em forma de coração sobre o coração, do tamanho de um punhal. é a figura da morte, se isto fosse tarot. a sua barriga grávida acentua o corpo que fala, e meio-viva acorda finalmente e sai na sua paragem.
ao meu lado esquerdo a menina, boneca-de-terror. os olhos mais assustadores que já me olharam, de umas pupilas gigantes, a cobrir quase toda íris, olhava para tudo ao seu redor meticulosamente. os lábios, pequenos e vermelhos, o olhar viajante. pele pálida, boneca-de-porcelana, cabelos longos, ondulados. embalada pelos solavancos, a sua cabeça articulada dançava como os olhos vibrantes de terror. um fantasma de si mesma. na mão segurava uma fotografia antiga, um retrato de um homem. um antepassado guardado naquela alucinação. observada curiosamente por outras pessoas, olha concentrada para fotografia que tem na mão e guarda-a na pequena carteira que carrega no colo, de lá retira outra fotografia, uma polaroid, com um retrato provavelmente dela mesma, que observa obsessivamente nos próximos minutos, voltando a pousar as mãos sobre o colo, a foto na mão, como se a mostrasse aos outros. saio na paragem com a certeza de segredos só meus, e que fotografar com os olhos seria magnífico. o quotidiano é infinito em coisas de coleccionar, e por vezes, encontram-se aos pares.

Uma menina que se maquilhava nos reflexos dos vidros dos túneis ferroviários olhou-me como só as bonecas antigas fazem e perguntou-me:
— És tu, Alice?... Alice Liddell?
Pensei responder-lhe imediatamente:
— Mas porquê? Pareço perdida?
Ela continuou a maquilhar as maçãs do rosto, atarefada. Respondeu-me entretanto, olhando o reflexo como se lhe tivesse realmente feito a pergunta.
— Estás aí não estás? Se fugisses, encontravas-te.
[uma julieta faltou ao encontro com um romeu]
parti uma romã exactamente
a meio e os meus olhos
tornaram-se gomos vermelhos
tinha cerejas nas pontas dos dedos
e na minha boca trincava frutos crocantes
como veías sanguíneas, era necrófila e sugava vida.
passei a tarde toda a limpar a casa vermelha.
Esqueci-me do meu romeu no café.
Foi sentir um estalido sobre os olhos
e respirar entre pernas, suave, majestosa por dentro,
a saber o infinito útero em mim d’Eva, a escolhida.
Foi como abrir um leque guardado no fundo e no meio,
saber grande e palpitante o que haverá a esconder.
Foi inspirar lento e compassado enquanto pego com pinças em pratos,
tachos, água, chama, lábio, sangue e cozinho tudo em fogo lento,
no lume do teu coração.
E escolher palavras sem acidente, gestos interiores e cuidados,
como pousar beijos na testa dos filhos.
e respirar entre pernas, suave, majestosa por dentro,
a saber o infinito útero em mim d’Eva, a escolhida.
Foi como abrir um leque guardado no fundo e no meio,
saber grande e palpitante o que haverá a esconder.
Foi inspirar lento e compassado enquanto pego com pinças em pratos,
tachos, água, chama, lábio, sangue e cozinho tudo em fogo lento,
no lume do teu coração.
E escolher palavras sem acidente, gestos interiores e cuidados,
como pousar beijos na testa dos filhos.
Disseste-me:
Este é o meu coração gigante. Vê como brilha.
É um rubi cintilante, orgânico e pulsante. É tão belo!
Eu defendi-me:
E este é o meu pássaro de estimação. Guardei-lhe as asas numa caixa de marfim.
Eram pequenas e penso usá-las um dia, como adorno. São jóias de voo mortas.
Não me perguntaste mais nada. Ambos sabíamos que o brilho dessas jóias era suficiente para nos cegar aos dois, por instantes, só pela vaidade de admirar coisas impossíveis.
Fechaste-me os olhos e roubaste-me a luz, de uma dor assim branca e densa de claridade. Fulminou-te por dentro e fez-te de uma luz santa a espalhar sombras por todo o lado. Vestias de branco.
continuo a guardar dinossauros no coração
são meigos no meu peito e só me afectam a reputação.
caem grandes nas páginas tímidas dos meus caderninhos azuis.
guardo-os como amuletos nas mãos e não
sinto vergonha deles. os clichés são como os dinossauros.
são enormes e invisíveis.
caem grandes nas páginas tímidas dos meus caderninhos azuis.
guardo-os como amuletos nas mãos e não
sinto vergonha deles. os clichés são como os dinossauros.
são enormes e invisíveis.
os dias são mais curtos agora que te descobri todo por dentro;
trago ainda a vontade de tocar o coração e as tuas penas interiores
essas, do desejo.
fotografei-te no peito, uma imagem desfocada
mostrou-me dos teus lábios, a utopia do beijo
e os teus olhos que morriam em melancolias finas.
olhavam directamente o tempo e falavam de nostalgia.
perdi-me nesses olhos, no canto da tua sombra estática.
trago ainda a vontade de tocar o coração e as tuas penas interiores
essas, do desejo.
fotografei-te no peito, uma imagem desfocada
mostrou-me dos teus lábios, a utopia do beijo
e os teus olhos que morriam em melancolias finas.
olhavam directamente o tempo e falavam de nostalgia.
perdi-me nesses olhos, no canto da tua sombra estática.






