Voltar ao ritual da infância dos sábados de manhã: levantar muito cedo para ver filmes antigos. Este era dos meus favoritos e deverá ter vindo também daí a paixão secreta pela vida (e pelas casas e bolos) dos suecos.

Aqui no norte a primavera mascára-se de outono. Há folhas no chão, e as manhãs frias têm por vezes uma neve miudinha que cobre os jardins tímidos. O vento é gélido e espesso, mas já não é de inverno. A luz do sol dura mais tempo e as nuvens rápidas deixam-no entrever mais vezes.
O frio parece de inverno mas o calor do dia fala em primavera. Cheira-se nas coisas da terra e vislumbram-se nas árvores despidas, prontas a despontar flores ao primeiro dia de calor.
Aqui pelo norte, o silêncio do inverno dá lugar às conversas dos pássaros que experimentam todas as canções. O vento compõe a melodia de varrer o ar, as folhas, e o sol fica com eles até mais tarde, a esticar o dia até à primavera.
Aqui pelo norte, esperar pelas estações é coisa de paciência, mas vê-las a brotar lentamente é também poesia.

A exposição mais sui generis e underground — e sinceramente, a mais interessante, em conteúdo — que vi até agora em Estocolmo, chamou-me a atenção para coisas relacionadas com as tendências. Mais do que com as tendências de consumo, com as tendências sociais deste século, que, no espaço de uma década conseguiu viajar um pouco por todas as décadas precedentes (em estilo e conteúdos culturais).
Uma exposição suburbana intitulada "A cultura hippie dos anos 70 em Farsta" dedicada a duas dúzias de fotografias dos anos 70 sobre os jovens irreverentes e hippies da época naquela localidade dos arredores de Estocolmo, aquando da inauguração do metro (a exposição estava precisamente num edifício adjacente). O metro de Estocolmo (Tunelbanna), foi uma obra realizada durante as décadas de 60 e 70, e deverá ter sido uma revolução para a vida das pessoas que viviam nas imediações da cidade (pela importância que têm os transportes públicos nesta terra fria sem carros, foi certamente uma transformação importante na vida das pessoas e da cidade). Pelos conteúdos das fotografias expostas adivinha-se que os jovens também acharam imensa piada embebedarem-se nas carruagens novas do metro (coisa que hoje em dia continua a ser uma tradição nocturna).
Mas ao que interessa: no meio de todas as fotos de jovens cabeludos bêbedos e desafiadores da autoridade havia uma imagem tirada no hall da estação que mostava dois rapazes muito hippies-cabeludos a serem olhados com reprovação por um casal (pouco mais velho), mas distintamente vestido "à época": uma forma de vestir e uma pose que é absolutamente aquilo que está hoje nos blogs de tendências, nos vídeos da Lana del Rey e nas ruas de Estocolmo: uma postura contraída, rígida, uma elegância comprometida, cabelos impecáveis, saltos clássicos, o casaco 60's da avó. Mais que uma forma de vestir, aquela era uma forma de ser, uma forma de estar. Um conservadorismo nada inocente, um pouco como aquele que (me parece) se aproxima, e se sente.
Há cerca de dez anos que vejo a moda e as tendências da cultura de massas a viajar pelas décadas marcantes do século XX: o glamour dos anos 20 e 30, o estilo dos anos 60, a febre dos anos 80. Mas é nesse limbo entre os anos 50 e 60 que se voa agora. Basta ver o Mad Men e já agora o Howl para perceber os exercícios nostálgicos mas também como os sentimentos dessa época são semelhantes (em questões diferentes ou não) aos dos dias de hoje.
Mais interessante que o exercício estético é perceber, quase como uma capicua, a inversão das tendências: nos anos 60/70 os hippies eram uma minoria da cultura de massas; hoje em dia, os "hipsters" ou as Lanas ou os Don Drappers são uma minoria esteta da cultura de massas. E as minorias, são coisas importantes.
A ouvir também, esta entrevista deliciosa com o Vitor Belanciano, uma boa discussão sobre a gaja-do-dia, e a nostalgia da ideia de uma época, com que a música, a moda, a televisão e o cinema nos contagia.
o mais difícil é o silêncio. por cá parece uma coisa palpável, com corpo. como se vivesse connosco nos intervalos dos sítios e da respiração. vive também dentro das pessoas.
é como se estragar o silêncio fosse estranho, fosse diferente. aqui o silêncio é como de vidro. menos frágil, mais corpóreo. não se estraga facilmente.
nunca pensei ter saudades do ruído português...
I hope to be with Pippi Långstrump in some months, playing with her and eating lot's of cake for breakfast.
Nessa altura já deverei escrever por aqui totalmente em inglês, ou então com tradução simultânea. Porque as línguas colam-se a nós quando pensamos com elas todo o dia. Entretanto vou tirar mestrado em tricot e já agora também em Design, que é o que interessa.
Por agora, é fazer figas até ao verão para, no fim do ano, conhecer o inverno mais frio de sempre.
em gotemburgo, para além de deliciosos brunches e fikas comprei um alfabeto de carimbos na Granit e um caderno cinzento e caneta na Muji. entrei num museu do design, o rösska museet de borla, dizendo apenas que era estudante de design (não pedem para mostrar um cartão, como os inquisidores de serralves). escolhi-te umas luvas e gorro a condizer e passei por lojas que me fizeram curiosa. aprendi finalmente a tricotar, com lindas agulhas de bambu e lã bonita, no conforto quentinho de um apartamento sueco, branco e ikea.
no país do ikea não se pode construir novo. isso é o segredo para terem de recuperar o antigo. é uma vida aparentemente fácil e simples, a moderação, a contenção e a simplicidade são as normas. mas lá fora fazem -25º no inverno e tens de ir trabalhar mesmo com dois metro de neve à porta de casa. dorme-se bem no país da pipi das meias-altas e come-se ainda melhor. mas está-se bem é dentro de casa.





