
Aquele comentário precioso de todas as velhinhas que ouvimos toda a vida, e que é realmente verdade. Porque é o essencial. Porque sem saúde (física ou mental), mudamos irremediavelmente a nossa vida e a das pessoas que nos rodeiam.
Não há epidemia que não leve consigo de arrasto o amor como o conhecíamos.
Primavera adentro
pela janela aberta
Pousou em todos
os móveis,
e nas minhas
pernas
Soubesse eu
tratar-se de uma
andorinha
Havia guardado
aquele pássaro.
Até me esquecer
da casa,
da morada
do meu coração
escancarado.

"(...) É tradicional aquilo que se diz que é para os efeitos pelos quais se diz que é e porquê. É uma definição como outra qualquer. Serve ao mesmo tempo para falar das coisas e, sobretudo, a partir das coisas na demanda de outros assuntos que assim se vão insinuando. Quando alguém quer dizer a alguém que a sua condição é um pouco mais sofisticada, dir-lhe-á, por exemplo, sabes, descobri este lenço naquela loja muito antiga, muito tradicional que há naquela rua onde ninguém vai. O outro, se perceber, responder-lhe-á, sim, sim já sei, é aquela loja que compra os restos de colecção da Zara. E pronto. Diz-se também que o tradicional é autêntico. Outra vaca no milho. Autêntico é tudo o que existe porque basta isso para lhe atestar a autenticidade, seja uma falsificação de uma pintura conhecida, seja um porta-chaves com o Monstro do Lago Negro."
Álvaro Domingues
Casa Oriental: Chá, Café e Chocolate
A saber: a perda, tal como um homem
é uma coisa sozinha sem dono.
A tê-la, nossa, é também de sofrer sozinhos.
Nunca partilhamos as perdas, nem as partidas.
Só o fôlego desse intervalo magro
entre largar a mão da tua presença.
Saber aquilo que me mirrava no peito
mas também no centro do coração:
uma estrela tão grande que crescia sem pontas,
só brilho.
Se acordo de um sopro,
adormeces naquele
segundo emprestado.
O amor só suga
o único ar intransmissível.
Porto, junho 2015

depois
Até o meu cabelo, apostado em não crescer anos a fio
parecia brotar do cucuruto, e da nuca, louco em longuras
depois que te deixei.
E as falas claras e concisas das conversas a ficarem para trás,
só um sussurro entre-dentes no passado.
E os gestos infinitos sempre os mesmos,
a serem agora revistos pela mãos novas que fiz.
Até os olhos, depois de te deixar,
são mais fáceis agora e sem aquela tristeza
que era da indiferença.
Depois de te deixar voltei a fotografar as mesmas imagens
que conhecia antes de saber quem eras.
Será que nunca soube de ti por causa das imagens velhas?
Ficarmos ocos por dentro nunca é uma opção.
É um desvio.
É para ficarmos a saber que o amor
nos rouba (sempre) à poesia.
Porto, junho 2015
Até o meu cabelo, apostado em não crescer anos a fio
parecia brotar do cucuruto, e da nuca, louco em longuras
depois que te deixei.
E as falas claras e concisas das conversas a ficarem para trás,
só um sussurro entre-dentes no passado.
E os gestos infinitos sempre os mesmos,
a serem agora revistos pela mãos novas que fiz.
Até os olhos, depois de te deixar,
são mais fáceis agora e sem aquela tristeza
que era da indiferença.
Depois de te deixar voltei a fotografar as mesmas imagens
que conhecia antes de saber quem eras.
Será que nunca soube de ti por causa das imagens velhas?
Ficarmos ocos por dentro nunca é uma opção.
É um desvio.
É para ficarmos a saber que o amor
nos rouba (sempre) à poesia.









