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| ilustração: Joana Estrela @dortyparker |
Era uma festa de estudantes universitários, a música era uma amálgama de músicas dançáveis, de várias épocas (anos 60, 70, 80, 90). Dançava como louca, sozinha, como sempre gostei de dançar. Era só eu e a música. Enquanto dançava aquele hit dos Doors, vi-o e tive a certeza que aquela música também era dele. Dancei para ele com essa certeza imaginada, que faria tudo mais romântico, mais certo.
Anos depois, lembrava-me em muitas situações da música do Rui Veloso "... não se ama alguém que não ouve a mesma canção". Que, apesar de ser uma ideia muito adolescente, tem o seu quê de verdade. Na música, o Rui Veloso leva a rapariga ao concerto, mesmo sabendo que ela não gostava.
Acho que nos fartamos de ser teimosos porque queremos provar que conseguimos o amor, que ele pode ser o que queremos ("...tu eras aquela que eu mais queria"), em vez de o aceitarmos tão imperfeito ou desadequado como a pessoa que amamos.
Mascarado de cantautor ativista dos anos 70, barbudo e despenteado, o Fachada cantou o Zeca como só ele, no meio de um centro comercial suburbano, em Agosto.
Se tivesse vivido os anos 70 quase que acreditava que teriam sido mais ou menos com aquela dose de improviso, loucura e suor.
Aquela música do Chico, "Tanto mar", a passar na jukebox do café Estádio. E aquela sensação estranha de não ter passado nenhum tempo, entre aquela música, a revolução, e o Portugal de 2012.
No espaço de dois dias já ouvi duas pessoas a queixar-se da proposta de lei que fará com que o Alojamento Local seja sujeito à autorização dos condomínios.
Parece-me cada vez mais uma cegueira generalizada. Eu não quero viver em cidades-fantasma, em que as pessoas locais desaparecem para os subúrbios, ou até para outras cidades. Não quero também, como a maioria das pessoas não quererá, viver em prédios onde entram diariamente pessoas diferentes, o que certamente gerará um sentimento de insegurança. Também não quero deixar de ver as mesmas pessoas que vejo na minha rua, ou na frutaria, ou no autocarro. Até porque se isso acontecer na escala galopante em que acontece, em breve esses serviços vão-se converter apenas em serviços de valor mais alto, pensados apenas para o segmento do turismo.
A única forma de conter o turismo num elemento agregador e não destruidor do tecido social de uma cidade (que é também preservar aquilo que a maioria dos turistas procuram nas cidades portuguesas) será uma regulamentação atenta não só da construção de hotéis mas também da regulação do alojamento local, um negócio que se tornará uma selva, não tarda muito.
Há muitos mais argumentos para esta questão, mas basta pensar a próxima geração, a querer viver ou estudar nas cidades, terá que alugar apartamentos a preço muito inflacionados pela desregulação absoluta do turismo local. O que fará com que tanto os estudantes como as universidades progressivamente abandonem os centros urbanos (o que aliás, já acontece). Sem jovens no centro e sem famílias (que não podem comportar o custo de vida na cidade), restam-nos apenas os serviços, o entretenimento e os turistas. Ninguém vai querer visitar uma cidade feita de e para turistas, e aí, rebentará finalmente a bolha do El Dourado do turismo de massas. Esperemos que já não seja muito tarde para a podermos reclamar a cidade de volta.
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Uma imagem para ilustrar tão bem estas ideias (já que não tenho fotografias que mostrem a absoluta turistificação do centro do Porto, porque me concentro a registar aquilo que lhe escapa).
E dois artigos essenciais:
A única forma de conter o turismo num elemento agregador e não destruidor do tecido social de uma cidade (que é também preservar aquilo que a maioria dos turistas procuram nas cidades portuguesas) será uma regulamentação atenta não só da construção de hotéis mas também da regulação do alojamento local, um negócio que se tornará uma selva, não tarda muito.
Há muitos mais argumentos para esta questão, mas basta pensar a próxima geração, a querer viver ou estudar nas cidades, terá que alugar apartamentos a preço muito inflacionados pela desregulação absoluta do turismo local. O que fará com que tanto os estudantes como as universidades progressivamente abandonem os centros urbanos (o que aliás, já acontece). Sem jovens no centro e sem famílias (que não podem comportar o custo de vida na cidade), restam-nos apenas os serviços, o entretenimento e os turistas. Ninguém vai querer visitar uma cidade feita de e para turistas, e aí, rebentará finalmente a bolha do El Dourado do turismo de massas. Esperemos que já não seja muito tarde para a podermos reclamar a cidade de volta.
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Uma imagem para ilustrar tão bem estas ideias (já que não tenho fotografias que mostrem a absoluta turistificação do centro do Porto, porque me concentro a registar aquilo que lhe escapa).
E dois artigos essenciais:










