Ao final do dia subi a rua, cansada, de bicicleta pela mão, e ao passar pelo atelier vi uma rapariga muito delicada descer o passeio que eu subia, em direção ao um senhor que a esperava abrigado numa garagem. Era o Siza. Quando passei por ele, olhou-me com aquele olhar que acho que só ele tem e pareceu-me ver por segundos os olhos curiosos da minha mãe, que gostava de lhe confessar ter sido aluna dele há muitos, muitos anos, e que tinha aquela curiosidade corajosa que me parece inata de quem viveu há 40 ou 50 anos atrás.
Depois apercebi-me que o Siza sobreviveu à sua aluna, e que sobreviveu também a uma perda profunda, só para se agarrar à vida (e ao trabalho) numa vida tão longa e tão cheia.
Depois fiquei sozinha, a chorar na companhia da bicicleta, a sentir-me mais pequena que nunca, com a sensação daquela saudade que nos esmaga por dentro, e que nunca deixa de ser.

As coisas que fazemos só para sentir borboletas no estômago,
e perseguir essa sensação a vida inteira...
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| Porto, 2017 |
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| ilustração: Joana Estrela @dortyparker |
Era uma festa de estudantes universitários, a música era uma amálgama de músicas dançáveis, de várias épocas (anos 60, 70, 80, 90). Dançava como louca, sozinha, como sempre gostei de dançar. Era só eu e a música. Enquanto dançava aquele hit dos Doors, vi-o e tive a certeza que aquela música também era dele. Dancei para ele com essa certeza imaginada, que faria tudo mais romântico, mais certo.
Anos depois, lembrava-me em muitas situações da música do Rui Veloso "... não se ama alguém que não ouve a mesma canção". Que, apesar de ser uma ideia muito adolescente, tem o seu quê de verdade. Na música, o Rui Veloso leva a rapariga ao concerto, mesmo sabendo que ela não gostava.
Acho que nos fartamos de ser teimosos porque queremos provar que conseguimos o amor, que ele pode ser o que queremos ("...tu eras aquela que eu mais queria"), em vez de o aceitarmos tão imperfeito ou desadequado como a pessoa que amamos.
Mascarado de cantautor ativista dos anos 70, barbudo e despenteado, o Fachada cantou o Zeca como só ele, no meio de um centro comercial suburbano, em Agosto.
Se tivesse vivido os anos 70 quase que acreditava que teriam sido mais ou menos com aquela dose de improviso, loucura e suor.
Aquela música do Chico, "Tanto mar", a passar na jukebox do café Estádio. E aquela sensação estranha de não ter passado nenhum tempo, entre aquela música, a revolução, e o Portugal de 2012.








