Há sete anos fotografei a minha cidade como nunca, calcorreei ruas, e até pedi ajuda ao meu pai para descobrir moradas. A motivação era uma dissertação de mestrado, e uma atração desmedida pelo Porto que descobri no arquivo do Espólio Fotográfico Português — coleção que até então desconhecia.
A propósito deste concerto, fiz uma visita breve a Guimarães. Nunca poderia ter sido tão breve, quase no lusco-fusco de um dia de Inverno em plena Primavera.
O "berço" de Portugal tem pormenores que não se podem captar só num fim de tarde. As lojas antigas, com mobiliário original (uma raridade no Porto, onde, nos últimos anos se destruiu as que ainda o mantinham), as montras inusitadas, e os cafés quase intocados fazem viajar no tempo.
É impossível não ficar nostálgica com esta atenção e respeito pelo detalhe, pelos materiais e pela matéria dos espaços. Numa altura em que a minha cidade parece estar a ser desmantelada, com um recurso vergonhoso (que se arrasta há anos) ao "fachadismo", ver uma cidade próxima que ainda não perdeu tudo dá-me algum alento.
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"(...) Boa parte da minha geração acomodou-se, tornou-se conservadora. Reage mal à ideia de feminismo. Reage mal à ideia de mudar de boas maneiras, de hábitos, para acomodar minorias. Reage mal à «revelação» do papel central do nosso país nessas coisas de conquista, escravatura, etc.
Reage mal à ideia que a cultura muda. Que não se está a moralizar a cultura. A cultura que defendem contra o politicamente correcto também era uma forma muito forte de moralidade. A ideia que as mulheres são musas, objectos do desejo, etc. A ideia do génio criativo, bruto, autor, total. E homem. E outras tantas ideias feitas.
Reage mal à mudança, nem sequer se pergunta se é boa ou má antes de decidir. Porquê deixar de dizer Descobrimentos? Porquê não dizer Mariconço? Porquê não associar cor de rosa a raparigas? Porquê não achar que a domesticidade é naturalmente feminina? Porquê deixou de ser o Woody Allen um humorista sofisticado para ser também um grunho? Nem sabem, nem querem sequer responder a isso. É tudo censura e ameaça e estalinismo.
O reverso da moeda é que se perde a capacidade para apreciar o que aí vem. Produz-se crítica literária a avisar que tal livro não agradará a quem não gosta do politicamente correcto. Gasta-se metade de uma crítica de cinema a denunciar a importância excessiva de um filme em termos de identidade negra, feminina, gay.
Já não foi a primeira vez nem será a última que se muda de critério, que se muda de estética, e há facções que se chocam.
Lembrei-me disso tudo quando vi o vídeo abaixo que é brilhante e calculo que totalmente incompreensível para um monte de gente, as pessoas acima sobretudo. Para elas será só mais outra infiltração do politicamente correcto."
texto do Mário Moura publicado em 07-05-2018 no Facebook
“(…) O fim do império, a 25 de Abril de 1974, poderia ter sido o começo do diálogo sobre o que aconteceu desde o século XV, esse dia inicial inteiro e limpo / onde emergimos da noite. Em vez disso, os demónios mais antigos foram empurrados para o fundo antes de virem à tona.
Todos os impérios são uma história da violência, caberá a cada um atravessar a sua para ser mudado. Quando isso não acontece o filho do que foi morto falará e o filho do que matou não conseguirá entendê-lo, porque o lugar do outro está por experimentar, nunca houve transformação. Quem teme deixar de ser quem é não vai saber quem foi nem quem vai ser. De olhos e ouvidos fechados aos espíritos, continuará a cobrir-se com as mesmas palavras.”
Alexandra Lucas Coelho, Deus-dará
Um blog com treze anos, feitos este mês: abandonado a tempos, mas sempre a tempo de ser retomado. A viver sempre de acordo com os anos e aquilo que há em mim, desde a disponibilidade às ideias de coisas a partilhar.













