Depois de "A Favorita"
Na senda das coletâneas atrasadas, as minhas escolhas do ano de doismiledezasseis.
Um ano fantasma, com pouca atividade neste blog, e quase nenhuma disponibilidade para as coisas sensíveis, a não ser para a nostalgia.
Com um atraso monumental nas contas dos anos e da música que vou ouvindo, recupero aqui as coletâneas no ano ido de doismilequinze, que de uma forma um tanto diferente, parece-me cada vez mais análogo a este ano de doismiledezoito. Já tenho uma música predileta, a ouvir em loop, para caber nesse álbum do ano que já vai a mais de meio.
Belize: I hate America, Louis. I hate this country. Nothing but a bunch of big ideas and stories and people dying, and then people like you. The white cracker who wrote the National Anthem knew what he was doing. He set the word free to a note so high nobody could reach it. That was deliberate. Nothing on Earth sounds less like freedom to me. You come with me to Room 1013 over at the hospital and I'll show you America. Terminal, crazy, and mean. I live in America, Louis. I don't have to love it. You do that. Everybody's gotta love something.
Louis: Everybody does.
Atalhando, a miscigenação nasceu da violência em massa sobre mulheres indígenas e negras. E essa violência continua a a não ser largamente reconhecida em 2018, fora da academia e de núcleos activistas. Mas qualquer debate sobre miscigenação terá de partir daí, da origem. E qualquer debate sobre miscigenação que não parta da origem vai gerar equívocos, involuntários e deliberados. Aliás, gerar equívocos tem sido um método do não-debate.
A primeira violência colonial é a violência sobre o corpo das mulheres, no século XVI como em 2018. Desvalorizar a violência do que se passou com as mulheres no século XVI continua a ser uma violência para as mulheres de 2018 (e para quem quer que se interesse pela verdade). Uma forma de dizer: para quê usar a palavra violação, era assim que as coisas eram, esqueçam. Sim, era assim que as coisas eram, foi assim que as coisas foram durante séculos, é assim que as coisas continuam a ser em demasiados lugares do mundo, e é por isso é que têm de ser encaradas. Uma longa história da violência, paralela à história masculina das violências.
Da violência base da miscigenação no Brasil resultaram muitos milhões de pessoas. Tantos que a cara do Brasil continua a ser morena, apesar de todo o esforço oficial de branqueamento levado a cabo por governos brasileiros, com incentivos à emigração europeia, desde a véspera da Abolição da Escravatura, em 1888. O Brasil é índio, preto, branco, mulato, caboclo, cafuzo. É o resultado de toda essa história. E a Segunda Abolição, que Caetano sempre defendeu que era necessária — volta a dizê-lo neste filme —, tem de ter todo o mundo lá, livre, ou não o será. Não será abolição. E como ela é necessária. (...)"
Alexandra Lucas Coelho
se te estenderes na areia
faz montes que
encaixam nos nós do
teu corpo, como moldes.
se entrares na areia
deixa o vento
pentear a curvas
nas costas, fazer carícias.
se te deitares nas rochas
encontra o ângulo,
a linha côncava do
mineral.
se entrares nas rochas
deixa que o limo e as algas
te cubram
como escamas novas.
se fitares o mar
atira-lhe as conchas que devolve
à rebeldia da areia
e do vento.
se desejares as ondas
não as olhes. ouve-as só,
a balançar como
um corpo estranho.
se souberes do mar,
da massa de água,
não a abraces. senta-te ao lado.
penteias a areia
acaricias a pele, no ar,
voltas ao peixe. depois,
um ser unicelular, sem memória
nem gesto.
Esta imagem, resumi-a à escuridão, para poder destacar "a República ao fundo", mas o que faz sentido é falar do porquê de me perder por aqui. Um sítio onde vivi alguns meses, que me marcaram, talvez ainda mais que os dois anos inteiros que vivi em Lisboa. Os sítios podem ser tão importantes como as pessoas, os momentos, o lugar onde estamos na vida. Às vezes sobrepõem-se à ideia de felicidade, ou de tristeza, são recetores de todas as emoções, como se tivessem emoções eles próprios.













